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                      Privacidade é um direito em extinção

 

Um engenheiro do Google foi preso em Nova York no mês passado por uso, para fazer apostas, de informação privilegiada a que ele tinha acesso.

Um estagiário de pós-graduação em Direito do Ministério Público do Paraná foi demitido, também no mês passado, porque usou informação privilegiada para tentar ganhar passe livre para ele e uma amiga numa academia.                             

Cercados por câmeras de monitoramento por todos os lados, nós seres humanos do século 21, já somos ilhas totalmente expostas no oceano da curiosidade e da morbidez dos outros. Estamos absolutamente desprovidos de privacidade.

E não são só essas as câmeras indiscretas. Há também as mais bisbilhoteiras ainda, as dos celulares. Além disso todas as nossas ações digitalizadas são monitoradas por algoritmos cada vez mais poderosos. Pesquisamos o preço de um tênis e somos imediatamente bombardeados por propagandas de grifes e lojas que produzem ou comercializam esse calçado.

A televisão pode ter câmera oculta devassando você em momentos íntimos. Pode ter um gravador embaixo do banco do carro. A câmera do laptop pode estar funcionando no sentido reverso. O lustre, a tomada, o chuveiro podem estar registrando imagens em microcâmeras. E isso pode acontecer dentro de casa, na empresa, no hotel. Um inferno.

Tem uma piada que diz que no escândalo Snowden, aquele de 2013, da bisbilhotagem mundial feita pelo governo dos Estados Unidos, o presidente Barack Obama visitava uma escola e foi questionado por um menino de 7 anos:

“Meu pai disse que você espiona a vida das pessoas. É verdade?”.

“Pra começar, ele não é o seu verdadeiro pai”, Obama responde.

E além de todas essas engenhocas e artifícios, ainda tem espíritos de porco, como esse engenheiro e esse estagiário, com poder de fuçar a vida da gente sabe-se lá com que finalidade.

O engenheiro do Google, o italiano Michele Spagnuolo, que mora na Suíça, apostou US$ 2,7 milhões a partir de informações do site de buscas. Ganhou mais de US$ 1 milhão, por exemplo, apostando que a pessoa mais pesquisada no Google seria o cantor D4vd e não Donald Trump. Lady Gaga ou Neymar. Abusou de uma informação que ainda não era pública. O cantor despertou muita curiosidade por ter sido acusado de assassinar um adolescente.

O estagiário do Paraná descobriu que um dono de academia tinha sido acusado pela ex-esposa de violência doméstica e não tinha constituído advogado. Mandou uma mensagem para ele oferecendo assessoria jurídica da mãe advogada e garantindo sucesso: “absolvição na certa”, a partir de informações sigilosas do processo. A contrapartida seria modesta: academia de graça para ele e para uma amiga.

O azar do estagiário é que ele mandou a mensagem para um celular antigo do dono da academia que estava com a ex, que denunciou na hora. Deu ruim. Foi demitido e vai responder processo.         

No ano passado, a câmera do beijo, num show da banda Coldplay, em Boston, nos Estados Unidos, flagrou Kristin Cabot, chefe de RH da empresa Astronomer, nos braços do CEO da empresa, Andy Byron. A reação do casal quando a imagem apareceu no telão do estádio foi equivalente a uma confissão planetária de adultério. Ela estava se divorciando e ele era casado.

Isso deu margem para que ela recebesse ameaças e xingamentos de todos os tipos. Todo mundo achou que tinha direito de se meter no caso. O episódio acabou com a carreira de Kristin, que tem dois filhos adolescentes. Em função do machismo estrutural, o impacto na vida de Byron foi muito menor.   

Tem um lado positivo nessa onipresença de câmeras e gravadores. Crimes são desvendados, justificativas falsas são desmentidas, traições são expostas e farsantes e trambiqueiros são desmascarados com muito mais facilidade. Mas tem um lado completamente negativo que é o dessa invasão absoluta de qualquer privacidade. De quebra, para finalizar, ficou quase impossível dar uma escorregada, uma mínima pisada fora da linha. E todos nós já demos esse passo em falso. Quem acha que não deu, pode atirar a primeira pedra em mim nos comentários aqui no ISN on Line.

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