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Por Odair Dias Filho
Em pleno mês de julho de 2026, a Arquidiocese Metropolitana de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, fez um anúncio que, aos olhos de muitos, parece ter saído de um roteiro de Hollywood, mas que reflete uma prática secular da Igreja Católica: a nomeação oficial de um exorcista.
O padre Kleber Tostes Pedro, de 49 anos, recebeu do arcebispo Dom Moacir Silva a provisão para celebrar o rito do Exorcismo Maior na região. O decreto ressalta as “necessidades espirituais dos fiéis” e joga luz sobre um dos ministérios mais reclusos, burocráticos e mal compreendidos da instituição milenar. Longe dos holofotes e do sensacionalismo, a realidade do exorcismo moderno é pautada por extremo rigor científico e cautela pastoral.
A descaracterização pela lente do cinema
Por mais de cinco décadas, o cinema explorou e, em grande parte, descaracterizou o ofício do exorcista. O marco dessa distorção ocorreu em 1973, com o clássico O Exorcista. A sétima arte transformou um rito essencialmente pastoral e contido em um espetáculo de horror visceral, definindo estereótipos que perduram até hoje.
Nas telas, os sacerdotes frequentemente assumem o papel de quase “heróis de ação” do sobrenatural — figuras solitárias travando batalhas mágicas repletas de efeitos especiais, levitações e confrontos físicos. A realidade nas sacristias, contudo, passa longe dessa espetacularização. O ofício exige silêncio, descrição e, acima de tudo, ceticismo por parte do próprio clero.
A lei da Igreja e a primazia da ciência
A atuação de um exorcista não é arbitrária; ela é regida com mão de ferro pelo Código de Direito Canônico, promulgado em 1983. A legislação eclesiástica aborda o tema no Cânon 1172, que estabelece uma regra inegociável: nenhum padre pode realizar o ritual sem a permissão “especial e expressa” de seu bispo local (o Ordinário).
Além disso, o mesmo código define critérios rigorosos para quem pode ocupar a função. O bispo só deve licenciar um presbítero que seja dotado de quatro virtudes: piedade, conhecimento doutrinal, integridade de vida e extrema prudência.
É exatamente a prudência que dita o protocolo prático: na Igreja Católica moderna, a ciência vem obrigatoriamente antes da religião. Antes de se cogitar a ação extraordinária do mal, a instituição exige que o fiel passe por uma profunda triagem médica, psiquiátrica e psicológica. O objetivo é esgotar todos os diagnósticos clínicos possíveis, como esquizofrenia, epilepsia severa ou transtornos dissociativos. Um exorcista só é acionado — e o rito só é autorizado — quando a medicina atesta não haver qualquer explicação científica para os fenômenos apresentados (como aversão inexplicável ao sagrado, força desproporcional ou fluência em línguas mortas desconhecidas pelo indivíduo).
Um histórico documentado no sul do Brasil
O Brasil possui um histórico real e bem documentado dessas intervenções, tratado com seriedade tanto pela imprensa local quanto pela própria Igreja. Um dos episódios mais célebres ocorreu em 1947, na cidade de Farroupilha, no Rio Grande do Sul.
Conforme registrado nos arquivos da Diocese, relatado no livro histórico “Linha Palmeiro” e amplamente investigado por reportagens do Jornal Pioneiro (Grupo RBS), o caso envolveu uma jovem moradora rural que, no dia de seu casamento, passou a manifestar um quadro inexplicável de fúria, força sobre-humana e rejeição a símbolos religiosos.
Após a falha dos tratamentos médicos disponíveis na época, o bispo local autorizou a intervenção do padre Teodoro Portolan. O embate ocorreu na sacristia do Santuário Diocesano de Nossa Senhora de Caravaggio e durou cerca de oito horas, precedido por dias de vigília ininterrupta de freiras locais, como a irmã Leonor Pasinato, testemunha dos fatos. O desfecho tornou-se notório: segundo os presentes, ao fim do ritual, um estrondo quebrou os vidros e retorceu as grossas grades de ferro da janela da sacristia de dentro para fora.
As grades retorcidas permanecem no local até hoje. Em 2018, a Igreja abriu o local para o público, batizando-o de Espaço Livrai-nos do Mal. A iniciativa não busca promover o medo, mas sim preservar a memória histórica da diocese e educar a população sobre o rigor exigido nos manuais de exorcismo.
A fé amparada pela razão
A recente nomeação do padre Kleber no interior paulista em 2026 demonstra que os exorcistas continuam entre nós. Eles não são os caçadores de demônios pintados por Hollywood, mas sim pastores de retaguarda, designados para acolher o sofrimento humano em sua forma mais aguda e inexplicável. Em um mundo dominado pela tecnologia, a Igreja mantém seus protocolos antigos vivos, garantindo que o mistério seja tratado com o máximo de respeito, sempre sob o escrutínio cauteloso da fé amparada pela razão.

