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Da “maré rosa” ao avanço conservador: a transformação política que redesenha o continente
Durante boa parte dos anos 2000 e início da década de 2010, a América Latina foi marcada pela chamada “maré rosa”, período em que governos de esquerda e centro-esquerda dominaram grande parte da região. Nomes como Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Luiz Inácio Lula da Silva, Evo Morales, Rafael Correa, Néstor e Cristina Kirchner tornaram-se símbolos de um ciclo político que defendia maior presença do Estado na economia, ampliação de programas sociais e uma postura de enfrentamento ao neoliberalismo.
Duas décadas depois, porém, o cenário regional apresenta uma configuração bastante diferente. A ascensão de líderes conservadores, liberais e de direita tem alterado o equilíbrio político latino-americano, produzindo uma das maiores transformações ideológicas desde o fim das ditaduras militares do século XX.
O fenômeno ganhou novo capítulo nas eleições presidenciais da Colômbia, realizadas neste domingo. O candidato de direita Abelardo de la Espriella surpreendeu as pesquisas e terminou o primeiro turno na liderança, com cerca de 44% dos votos, superando o senador de esquerda Iván Cepeda, apoiado pelo presidente Gustavo Petro, que obteve aproximadamente 41%. O resultado colocou o país diante de uma disputa que poderá redefinir os rumos políticos da América do Sul nos próximos anos.
Mais do que uma eleição nacional, o caso colombiano tornou-se um símbolo de uma tendência regional que vem se fortalecendo desde o final da década passada.
O início da virada
Embora a ascensão conservadora tenha diferentes características em cada país, analistas costumam apontar que o movimento começou a ganhar força após o desgaste progressivo dos governos de esquerda que dominaram a região durante os anos de crescimento impulsionado pelo boom das commodities.
Quando os preços internacionais de petróleo, minério, soja e outras matérias-primas começaram a cair, diversas economias latino-americanas passaram a enfrentar dificuldades fiscais, desaceleração econômica, inflação e aumento do desemprego.
Ao mesmo tempo, escândalos de corrupção atingiram governos historicamente associados à esquerda. O caso da Operação Lava Jato no Brasil tornou-se um dos episódios mais emblemáticos desse processo, alimentando um sentimento de rejeição às elites políticas tradicionais.
Foi nesse contexto que surgiram lideranças que passaram a se apresentar como alternativas ao sistema político convencional. Muitas delas utilizaram um discurso anti-establishment, defesa da segurança pública e críticas às instituições tradicionais.
A eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, em 2018, foi um dos momentos mais marcantes dessa transformação. Ex-capitão do Exército e deputado federal por quase três décadas, Bolsonaro construiu sua campanha com forte presença nas redes sociais, críticas ao Partido dos Trabalhadores e promessas de combate à corrupção e à criminalidade.
O bolsonarismo rapidamente ultrapassou a figura do próprio ex-presidente e passou a representar um movimento político mais amplo, influenciando candidaturas em diversos níveis de governo. A força dessa corrente política permanece relevante mesmo após o fim do mandato presidencial, consolidando-se como uma das principais expressões da direita latino-americana contemporânea.
Segurança pública se torna prioridade eleitoral
Se existe um tema capaz de unir boa parte dos novos líderes conservadores da região, esse tema é a segurança pública.
O crescimento do crime organizado, das facções criminosas, do narcotráfico e da violência urbana transformou a segurança em uma das principais preocupações dos eleitores latino-americanos.
Nenhum exemplo simboliza melhor essa tendência do que o presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Sua política de combate às gangues transformou radicalmente a imagem do país. Embora enfrente críticas de organizações internacionais de direitos humanos, Bukele tornou-se extremamente popular e passou a servir como referência para políticos conservadores em toda a América Latina.
O próprio Abelardo de la Espriella tem sido chamado por apoiadores e adversários de “Bukele colombiano”. Durante a campanha presidencial, ele prometeu uma ofensiva militar contra grupos armados, a construção de megaprisões e o endurecimento das políticas de segurança.
A estratégia reflete uma demanda crescente dos eleitores por respostas rápidas diante do aumento da violência em diversos países da região.
Milei e a radicalização do discurso econômico
Enquanto Bukele tornou-se símbolo do combate à criminalidade, o presidente argentino Javier Milei passou a representar uma nova vertente da direita latino-americana focada no liberalismo econômico radical.
Eleito em meio a uma grave crise econômica, inflação elevada e desvalorização da moeda argentina, Milei chegou ao poder prometendo cortes drásticos de gastos públicos, redução do tamanho do Estado e reformas estruturais profundas.
Sua vitória demonstrou que o descontentamento econômico também se transformou em combustível para o avanço conservador.
A Argentina tornou-se um laboratório político observado atentamente por outros países da região. O sucesso ou fracasso de suas medidas econômicas poderá influenciar futuras eleições em todo o continente.
Chile, Equador e Bolívia reforçam mudança regional
O avanço da direita não se limita aos casos mais conhecidos.
No Chile, a ascensão de José Antonio Kast consolidou uma das maiores mudanças ideológicas da história recente do país, demonstrando o crescimento do eleitorado conservador após anos de predominância progressista.
No Equador, Daniel Noboa manteve uma linha de centro-direita focada principalmente em segurança pública e estabilidade econômica.
Na Bolívia, a vitória de Rodrigo Paz representou o encerramento de um longo período de predominância da esquerda ligada ao Movimento ao Socialismo (MAS).
Já em países da América Central, governos conservadores ou alinhados a agendas de endurecimento da segurança pública vêm ganhando força, refletindo preocupações semelhantes às observadas no restante do continente.
A influência do bolsonarismo na nova direita latino-americana
Entre todos os movimentos conservadores da região, o bolsonarismo ocupa uma posição singular.
O Brasil é a maior economia da América Latina e possui enorme influência política sobre seus vizinhos. Por isso, as disputas ideológicas brasileiras acabam repercutindo em todo o continente.
O bolsonarismo ajudou a consolidar estratégias que posteriormente foram replicadas por outros grupos conservadores: forte presença digital, comunicação direta com eleitores, desconfiança das grandes instituições, valorização de pautas conservadoras nos costumes e foco em temas como segurança pública.
Além disso, a polarização política brasileira passou a servir de referência para debates em diversos países latino-americanos.
Hoje, mesmo sem ocupar a Presidência da República, o movimento continua sendo um dos principais polos de mobilização política da região.
O efeito Trump e a conexão internacional
O crescimento da direita latino-americana não pode ser analisado de forma isolada.
Nos Estados Unidos, Donald Trump transformou profundamente o Partido Republicano e inaugurou uma nova forma de comunicação política baseada em forte apelo popular, enfrentamento às elites tradicionais e defesa de pautas nacionalistas.
Diversos líderes latino-americanos passaram a adotar elementos semelhantes em suas campanhas.
Abelardo de la Espriella, por exemplo, é frequentemente apontado como um admirador de Trump e utilizou durante a campanha um discurso alinhado a pautas de endurecimento da segurança e combate ao que chama de burocracias internacionais.
Na Europa, o crescimento de partidos de direita e direita radical também tem influenciado o debate político global. Questões relacionadas à imigração, identidade nacional, inflação, crise econômica e segurança passaram a ocupar o centro das discussões eleitorais em diversos países europeus, fortalecendo movimentos conservadores e nacionalistas.
Esse ambiente internacional contribui para criar uma espécie de rede informal de influência ideológica que ultrapassa fronteiras nacionais.
O desgaste da esquerda e o voto de insatisfação
Especialistas apontam que o crescimento da direita na América Latina não ocorre apenas pela força de seus discursos, mas também pelo desgaste acumulado por governos progressistas.
Inflação, baixo crescimento econômico, aumento do custo de vida, insegurança e crises institucionais têm alimentado um sentimento de frustração em parcelas significativas da população.
Em muitos casos, o voto em candidatos conservadores aparece menos como uma adesão ideológica absoluta e mais como uma manifestação de insatisfação com governos anteriores.
Esse padrão já foi observado em diferentes momentos da história latino-americana, marcada por ciclos de alternância entre esquerda e direita.
A Colômbia como termômetro do continente
As eleições colombianas podem representar um dos momentos mais importantes desse processo.
O país vive uma realidade marcada por violência política, atuação de grupos armados e desafios econômicos significativos. O assassinato do pré-candidato Miguel Uribe no ano passado ampliou ainda mais as preocupações sobre a estabilidade democrática e a segurança nacional.
Nesse contexto, a liderança de Abelardo de la Espriella no primeiro turno reforçou a percepção de que o eleitorado colombiano busca mudanças profundas, especialmente na área da segurança pública.
Ao mesmo tempo, o desempenho de Iván Cepeda demonstra que a esquerda continua possuindo uma base eleitoral robusta e competitiva.
O segundo turno, marcado para 21 de junho, deverá funcionar como uma espécie de plebiscito sobre os rumos políticos da Colômbia e poderá indicar tendências importantes para futuras eleições em outros países da América Latina.
O continente entra em uma nova disputa ideológica
A América Latina atravessa uma nova fase de sua história política.
O avanço de lideranças conservadoras, liberais e de direita reflete transformações profundas nas demandas da população. Segurança pública, inflação, crescimento econômico, corrupção e migração passaram a ocupar o centro das preocupações dos eleitores.
Mais do que uma simples mudança partidária, o continente presencia uma disputa entre diferentes modelos de Estado, desenvolvimento econômico e organização social.
A eleição colombiana tornou-se o capítulo mais recente dessa história. Independentemente do resultado final, uma realidade já parece consolidada: a direita voltou a ocupar posição central no debate político latino-americano e deverá continuar influenciando os rumos da região nos próximos anos.

