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Juiz de Fora – Aos 47 anos, Wallace William da Costa iniciou uma nova etapa da trajetória que começou ainda durante o período em que esteve preso. Ex-detento, ele começou nesta terça-feira (18) o internato de Medicina em Juiz de Fora, na Zona da Mata de Minas Gerais, cidade onde vivem a esposa e as filhas.
Estudante da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), em Araguaína, Wallace precisou morar a mais de 2 mil quilômetros de casa para cursar a graduação. Depois de concluir os oito primeiros períodos do curso, conseguiu autorização para realizar a etapa prática em Minas Gerais por meio de mobilidade acadêmica.
A autorização, inicialmente, contempla três meses de atividades, com duas disciplinas. Segundo o estudante, outras duas ainda aguardam liberação.
O retorno para perto da família marca uma mudança importante em uma trajetória que passou pela prisão, pela retomada dos estudos e, posteriormente, pela aprovação em Medicina.
Primeiro dia de internato foi marcado por emoção
O primeiro dia da etapa prática aconteceu na terça-feira (18). Wallace contou que ficou satisfeito com a experiência e destacou o desejo de transformar a própria trajetória em uma forma de acolher pacientes.
“Meu dia foi maravilhoso. Espero que os demais também sejam assim, com muito aprendizado. Quero conseguir atender as pessoas da forma como eu gostaria de ser atendido. Espero dar essa nova guinada, agora junto da minha família, que é muito importante. A motivação é diferente quando você está perto de casa.”
O internato é a etapa final da graduação em Medicina. Nesse período, os estudantes passam a atuar nos serviços de saúde sob supervisão, colocando em prática conhecimentos adquiridos durante o curso.
Mais de 2 mil quilômetros longe da família
A distância entre Juiz de Fora e Araguaína foi um dos principais desafios enfrentados por Wallace durante a graduação.
Em 2023, quando ainda estava no segundo período de Medicina, ele já havia relatado ao g1 as dificuldades de ficar longe da esposa e das filhas para seguir o sonho de se tornar médico.
Agora, com a possibilidade de realizar parte da etapa prática em sua cidade, ele poderá passar mais tempo ao lado da família.
“Ficar longe da família é difícil demais. Com essa chance de fazer a etapa prática em Juiz de Fora, pelo menos nesse período, já me ajuda muito.”
A autorização de mobilidade acadêmica permite que parte da formação seja realizada em outra instituição, conforme as regras e autorizações das universidades envolvidas.
Do período na prisão à universidade
Antes de chegar à universidade, Wallace passou por uma experiência que mudou os rumos de sua vida.
Aos 18 anos, ele foi preso e cumpriu quatro anos de pena em regime fechado na Penitenciária José Edson Cavalieri, em Juiz de Fora. Durante o período de encarceramento, decidiu concluir o ensino médio.
“Quando me vi privado da liberdade, percebi que precisava escolher entre continuar naquela vida ou mudar. Foi quando tive um estalo e decidi concluir o segundo grau dentro da penitenciária, por meio de um processo supletivo.”
Depois de deixar o sistema prisional, Wallace continuou estudando até conseguir ingressar no curso de Medicina da UFNT.
Para ele, a educação foi fundamental para construir uma nova trajetória.
‘Sempre há uma nova forma de ver a vida’
Wallace afirma que a própria história mostra que o passado não precisa determinar o futuro de uma pessoa.
“Geralmente, a pessoa que está nesse lugar não consegue enxergar nada de diferente. Mas, se você lutar, muda essa situação. Quando você bate no fundo do poço, não tem mais para onde descer. É aí que você pega o impulso e sobe.”
Aos 47 anos, ele se aproxima da conclusão de um projeto que começou durante o período em que estava privado de liberdade. Agora, ao iniciar o internato em Juiz de Fora, também espera construir uma relação diferente com os pacientes que encontrará durante a formação.
“Eu sou uma prova viva de que é preciso lutar pelos sonhos. Sempre vai haver esperança, desde que a pessoa queira. Sempre há uma nova forma de ver a vida.”

