|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
O show de horrores detonado pela morte no rope jump
Algumas postagens de comentários nas redes sociais dão uma ideia muito mais precisa sobre a personalidade dos autores do que sobre o acontecimento abordado.
Vertem dessas torneiras fluxos abundantes de inveja, ódio, impotência, frustração, egoísmo, narcisismo, truculência reprimida, orgulho… tudo de ruim.
Neste mês de junho, o estopim mais virulento dessa caixa de Pandora foi a morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, lançada sem a corda do salto de rope jump de uma altura de 40 metros na Ponte dos Esqueletos, no interior de São Paulo, entre as cidades de Limeira e Cordeirópolis.
A tragédia aconteceu no sábado, 13/06, e abriu a comporta para uma enxurrada de horrores nas redes sociais.
E põe horror nisso. Necrofilia e estupro incentivados, só para começar.
Os autores, mobilizados talvez pela inveja da beleza da infeliz jovem, lançada para a morte de uma altura equivalente à de um edifício de 12, 13 pavimentos, celebravam o drama da moça e da família dela, sugeriam estupro do cadáver, imaginavam festas no Instituto Médico Legal, sugeriam a remontagem cuidadosa do corpo para abuso sexual.
Mais que incentivo e naturalização desse tipo de crimes, as postagens atropelavam a ofensa, vilipendiavam um cadáver, banalizavam a violência sexual, a profanação, Destilavam ódio cibernético e misoginia em teores de altíssima concentração.
Houve quem explicitasse que mulheres que se apresentam com essa beleza de verdadeiras deusas nas redes sociais não merecem compaixão ou piedade diante de um infortúnio dessa dimensão.
Merecem o quê, então? Regozijo, gargalhadas de Coringa, brindes com vinho temperado com sangue?
Por que as postagens revelam mais sobre os autores do que sobre os fatos?
Porque a reação individual ao sofrimento do outro traduz a personalidade do espectador.
O prazer em provocar ou acompanhar a dor de outra pessoa aponta para a crueldade. Quando o cruel não se limita a acompanhar com essa baba de satisfação, mas também é o autor da tortura, da perversidade, aí pode ser identificado o sadismo.
Há quem se limite à indiferença. Caracteriza o egoísmo.
Há quem sinta piedade. Aqui há compreensão do sofrimento. Mas a pena , o dó, apontam para um espectador triste com a dor do outro. Mas que se coloca numa posição acima dele.
Se você traduz a evolução da alma humana pela capacidade de amar os semelhantes, mandamento-estrela-guia de Jesus Cristo, a reação que leva à admiração de outro ser humano é a da compaixão.
Compaixão, na origem latina, significa “sofrer junto”. Você no mesmo nível daquele que sofre. Os gregos concordam com os romanos nessa acepção. Simpatizar, na origem helênica, tem o significado de “sentir junto”.
Muitos de nós estamos longe de ter essa reação solidária. E solidariedade vem do latim solidus. Tem o significado de se sentir parte do todo. O todo, neste caso, é a humanidade.
A ausência da solidariedade assim, é indício claro da personalidade da pessoa desumana.
