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As bitucas na praia e a cidadania zero

 

A cena costuma acontecer com frequência em qualquer praia brasileira. Nem as mais paradisíacas escapam. O fumante dá a última tragada no cigarro e sepulta a bituca na areia.

O resultado da somatória de milhões desses comportamentos todos os dias coloca o Brasil no quarto lugar do ranking mundial de países com as praias mais poluídas por guimbas.

A pesquisa reuniu dados de 130 estudos que monitoraram os banhistas sujismundos de 55 países entre 2013 e 2024. A revista científica Environmental Chemistry Letters publicou o ranking nesta semana.

Duas praias de Guarujá (SP) – Santa Cruz dos Navegantes e Perequê – estão no topo. Outras duas praias pernambucanas também são campeãs nesse quesito: Porto de Galinhas e Boa Viagem. Nesta última foi encontrada uma média de 8,85 bitucas por metro quadrado de areia, 37 vezes maior que a média mundial, de 0,24.

Só o Irã, o Chile e a Tailândia estão acima do Brasil nesse ranking de porcolinos.

Uma única bituca pode contaminar mais de mil litros de água com microplásticos e mais de 7 mil substâncias entre elas nicotina, metais pesados e compostos cancerígenos. E tudo isso chega nos organismos tanto de pequenas espécies marinhas como de grandes predadores.

O gesto de enterrar ou arremessar a bituca na areia pode até parecer inocente. Mas não é. Repetido sistematicamente, exaustivamente, tem consequências dramáticas para a natureza. As organizações que tentam combater esses efeitos, como a Ecofaxina, recolhem milhares de bitucas em cada mutirão. Mas outras milhões escapam dessas ações e também, misturadas com a areia, por serem pequenas, ficam fora do alcance dos trabalhadores e dos equipamentos da limpeza urbana.   

O curioso é que em outras situações o fumante apresenta comportamento radicalmente diferente, muito mais civilizado. Na praça de alimentação do shopping, recolhe a bandeja e até separa o lixo orgânico do reciclável.

Essa dicotomia traduz uma das grandes distorções da vida social no Brasil. Os brasileiros, olhamos o que é de todos como se não fosse de ninguém. O shopping tem dono, a praia não. Não se sabe muito bem porque temos esse comportamento destrutivo em relação ao bem público, bem diferente de outros povos.

Uma rara exceção nesse cenário é o metrô. O passageiro que procura a lixeira para descartar uma embalagem dentro do metrô é o mesmo que joga no chão o papel da bala ou do bombom assim que se vê na rua. Aqui parece valer aquela tese da janela quebrada: do que está bem cuidado, como o metrô, nós cuidamos. Do que já está zoado, como a limpeza da rua, nós ajudamos a zoar.

No século passado, uma peça de publicidade na TV abordou de maneira genial esse comportamento ao retratar com tintas dramáticas o vandalismo que era muito comum contra os telefones públicos, apelidados de orelhões. As agressões eram apresentadas em câmera lenta e sugestionavam que os orelhões sofriam como se fossem humanos.

O mundo mudou, os orelhões sumiram do cenário, substituídos pelos telefones celulares, mas a falta de cidadania permanece exatamente a mesma. Só trocou de endereço.

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