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O tenente-coronel macho alfa e o estuprador sem arrependimento
Está ficando cada dia mais difícil definir um limite para a estupidez. As redes sociais mudaram completamente os contornos dela. O estúpido passou a ter orgulho dessa condição. Questionado com lógica, responde com qualquer boçalidade. Os algoritmos reúnem em grupos os adeptos de quaisquer tipos de esquisitice, inclusive as criminosas. E aí a boiada desgovernada atropela todos os valores que constituem a humanidade.
Dois casos recentes acendem sinal de alerta vermelho para o crescimento dessa doença social que arregimenta um número cada vez maior de monstros.
No Rio de Janeiro, um dos acusados de estupro coletivo de uma menina de 17 anos se entrega à polícia vestindo uma camiseta com a inscrição “Regret Nothing”. A tradução é: Não se Arrependa de Nada.
Esse slogan acompanha grupos de estupidez machista que propagam ódio e violência contra as mulheres nas redes sociais. Andrew Tate tem 11 milhões de seguidores no X. Um exército pronto para corajosamente agredir meninas e mulheres que não aceitem as investidas libidinosas deles.
O valente herói da camiseta tem 18 anos. A vítima do estupro coletivo de Copacabana reconheceu o rapaz como um dos estupradores. A foto dele e dos outros criminosos estampou um cartaz de “Procurados”. Ele está preso e sujeito a sofrer na prisão violência sexual por outros detentos. É o Código de Hamurabi, que 3800 anos depois de implantado na Babilônia ainda está em pleno vigor nos presídios brasileiros, administrados por facções criminosas. O pai dele foi exonerado do cargo que ocupava no governo do Rio de Janeiro. Mas ele manifesta o não-arrependimento.
Ou seja: ele se orgulha de com outros 4 machos alfa ter estuprado e agredido covardemente uma garota indefesa. O cartaz com a cara dele como “procurado”, a prisão, a possibilidade de sofrer violência sexual, a perda do emprego do pai, nada disso faz com que ele troque a arrogância pelo arrependimento.
Em Sâo Paulo, um tenente-coronel da Polícia Militar, Geraldo Leite Rosa Neto, 53 anos, também se considerava “macho alfa”. Foi assim que ele se definiu numa mensagem para a esposa, Gisele Santana, de 32, dois dias antes da morte dela.
Esse outro macho alfa também está preso, por evidências de feminicídio e fraude processual. Nas mensagens ele proíbe a esposa de usar roupas justas, de cumprimentar outros homens com beijo no rosto ou conversar com eles na rua. O tenente-coronel diz nessas mensagens que a esposa tem de ser uma fêmea beta, obediente e submissa e sempre pronta a retribuir com sexo às contas que ele, provedor, paga. Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido, ele escreve, ignorando que ela também trabalhava como soldado da mesma Polícia Militar na qual ele tinha a patente dele.
É difícil dizer se o tenente-coronel está em desacordo com a História ou com a Geografia. Será que ele acha que está no Brasil dos anos 1500 e 1600, em que negras e indígenas eram escravas e os sacerdotes católicos diziam que elas não tinham alma? Ou será que ele pensa que está num país fundamentalista onde mulheres que não cobrem o corpo todo e o rosto podem ser assassinadas na rua?
Uma coisa é certa: neste Brasil do século 21 esse monstro disfarçado de policial não está. Nem ele, nem o outro aprendiz de macho alfa da camiseta sem arrependimento.
Cabe à justiça proteger as meninas e mulheres do país da ação desse tipo de homem. E isso só pode ser feito com cadeia. Muito tempo de cadeia. Quem sabe lá eles possam reformular esses valores tortos e essa estupidez que se orgulha de si mesma.
