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As lembranças mais doces são as das coisas mais simples                    

 

Era a noite desta quarta-feira (02/09). O Santos jogava contra o Palmeiras na Vila Belmiro. Mas o horário era muito ruim pra quem apresenta um jornal de rádio e TV às 7 da manhã: 21h30.

Fiquei em casa para assistir ao primeiro tempo pela TV. Como tinha pão francês do dia e também presunto e queijo, preparei um misto-quente. O pão aquecido no grill e o presunto e o queijo numa frigideira.

Quando dei a primeira bocada, o gosto do sanduíche preparado em casa me transportou imediatamente para 1969. 57 anos de viagem pelo tempo !!! Era o ano do cursinho de preparação para o vestibular de Engenharia. Curso Cidade de Santos / Anglo. Como eu também cursava o terceiro ano do Ensino Médio (na época o nome era Científico ou Colegial) no Colégio Santista, frequentava o cursinho à noite. Chegava de volta em casa às 11 e meia. Varado da fome de quem tem 17 anos e do cansaço de quem queria entrar na melhor universidade. E sempre tinha um misto-quente e uma vitamina (leite batido com banana e mamão) me esperando.

Se saudade matasse, eu tinha morrido nesta quarta-feira.

Minha mãe, falecida muito nova em 1981, pulsou muito forte dentro do meu peito.

O ato de carinho era muito simples. Mas 57 anos depois acende uma fogueira de gratidão e de saudade dentro do meu coração.

A gente não percebe a construção dessas lembranças.

No dia seguinte, o Santos eliminado da Copa do Brasil com o empate de zero a zero, mandei uma mensagem para a minha namorada, Patrícia. Confessei que estava com muita saudade de tomar um açaí com ela no final da tarde no Shopping Balneário, em Santos. Quem gosta de açaí sou eu. Aprendi com meus filhos, Gui e Luluza, e contaminei a Patrícia. Tem de ser no Balneário? Tem. Primeiro porque esse shopping é muito acolhedor. E segundo porque lá tem o açaí Oak Berry, adoçado com caldo de cana. Especial. Mantenho uma cruzada pessoal contra o açúcar branco há mais de 40 anos.

Do açaí a minha saudade recente se estendeu para outras rotinas que a mudança da Patrícia para São Paulo, em julho, abortou. Tipo os sanduíches com Coca Zero KS na padoca Washington Luís. Tipo as manhãs de domingo na barraca de praia da Associação de Engenheiros e Arquitetos.

Veja que também são coisas muito simples. Tão simples quanto o açaí do Balneário.

Veja que eu também não percebi a construção dessas lembranças. Só quando bateu a saudade.

Já vivi momentos marcantes com a Patrícia neste ano, como a posse na diretoria da Associação de Engenheiros e Arquitetos ou a festa do centenário do Tênis Clube de Santos. Mas é o açaí, é a padoca, é a barraca que acendem uma fogueira de saudade. É a conversa intercalada pelas risadas, o olhar no olho, as observações do momento sobre as pessoas que passam, as brincadeiras bobas, as provocações inocentes e inofensivas tipo o desafio: “quem vai ganhar no boliche?”.

A gente não percebe a construção dessas lembranças de coisas simples. Mas são elas que temperam a vida. Mas são elas que são eternas. Mas são elas que fazem o coração transbordar de doçura.  

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