Publicidade
Getting your Trinity Audio player ready...

A ponte do perdão                     

 

Por que é tão difícil perdoar?

Uma frase clássica diz que quem bate não lembra, mas que quem apanha nunca esquece.

Esquecer não é perdoar. O ofendido que diz que já esqueceu, mente. É impossível esquecer uma ofensa, uma agressão.

Absolver também não é perdoar. Não temos esse poder. Nem a justiça humana tem. Se o culpado for absolvido no julgamento, não vai escapar da justiça divina.

Também não perdoa aquele que exige uma contrapartida. Que humilha. Que espezinha. Que condiciona o perdão ao arrependimento.

O perdão é incondicional.

Inquirido por Pedro, apóstolo, sobre quantas vezes deveria perdoar um agressor: “até sete vezes?”, Jesus responde com uma das suas frases que ecoam há mais de dois mil anos:

“Não até sete vezes, mas sim até setenta vezes sete vezes.”

Uma das atividades que exerço na vida é a de professor de Química. Mas nunca tinha reparado que a palavra perdoar é composta de “per” + “doar”. Per em Química é mais. Mais oxigênio. Mais vida, portanto. O permanganato tem mais átomos de oxigênio que o manganato. O peróxido, como a água oxigenada, tem um átomo a mais de oxigênio que óxido. Uma professora de Química me chamou a atenção para isso. Perdoar é mais do que doar.  

Um perdão muito difícil é o auto-perdão. Em algumas circunstâncias talvez seja mais difícil perdoar os próprios erros do que os erros dos outros.

Se o perdão não é nada disso, então o que é?

O perdão é a vitória libertadora sobre o ressentimento. O criminoso não vai deixar de responder pelo crime por conta do perdão. A responsabilidade dos nossos erros permanece nossa. Mas quem perdoou de verdade volta a entender que o ofensor, o criminoso é um irmão. Agredido e agressor, os dois pertencem ao gênero humano. Solidariedade é a sensação e a consciência de pertencimento a esse todo: a humanidade. Quem perdoa passa a desejar o bem para a pessoa por quem foi ferido. E se puder vai ajudar o outro a evoluir.

Essa consciência é muito importante não só diante dos fatos que nos afetam diretamente. Como é o nosso comportamento diante da desavença dos outros? Estimulamos o perdão ou colocamos mais querosene no fogareiro?

Tem uma história antiga que ilustra essa postura.

Dois irmãos criados numa fazenda, e que herdaram cada um a metade dela depois da morte dos pais, viveram décadas em perfeita harmonia. Atravessaram infância, adolescência, juventude como perfeitos amigos. A amizade contagiou as esposas e os filhos dos dois depois de casados. Um dia, já maduros, discutiram por causa de uma bobagem e brigaram. Um deles desviou um rio para separar definitivamente os dois pedaços de terra em que eles viviam. O outro contratou um carpinteiro para construir um muro bem alto para impedir a visão do sítio dele. Não queria nunca mais olhar o irmão, a cunhada, os sobrinhos. Deixou a madeira, os equipamentos e os acessórios com o carpinteiro, detalhou o projeto do muro e viajou. Quando voltou, quinze dias depois, ficou possesso de raiva. Espumava. No lugar do muro, o carpinteiro, velhinho, tinha construído uma ponte sobre o rio que separava as duas propriedades. Uma ponte linda, em arco, a madeira toda envernizada.

“Você entendeu tudo errado, velho maldito?”

Não deu tempo do carpinteiro responder. O irmão vinha correndo do outro lado da ponte. Abraçou, chorando, o irmão irritado:

“Como você é evoluído !!! Eu desviei o rio para nos separar e você construiu uma ponte para nos unir de novo !!!

A reconciliação foi doce e definitiva.

Agradecido, o contratante do velhinho foi conversar com ele:

“Tem alguns outros serviços de carpintaria aqui na fazenda, Preciso muito dos seus serviços.”

 O carpinteiro (será que o nome dele era José?) responde:

“Não posso ficar. Minha missão aqui já está cumprida. Tenho muitas outras pontes para construir por esse mundo”     

Destaques ISN

Relacionadas

Menu