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O futebol, essa pátria sem território que um dia prometeu unir os povos em torno de uma esfera de couro, acaba de ser engolido pelo dragão da geopolítica mais rasteira. A Copa do Mundo de 2026 não será lembrada pelos dribles, pelos gols ou pela festa nas arquibancadas; ela será enterrada pela história como o monumento à soberba, a “Pax Americana” que transformou o campo em trincheira e o árbitro em secretário de governo.
Vivemos um remake de 1938, mas com figurino novo. Hitler, em seu delírio de pureza, anexou a Áustria e forçou o Wunderteam a vestir a camisa alemã, transformando o esporte em um desfile de propaganda. Hoje, a anexação é silenciosa, mas igualmente brutal: o governo dos Estados Unidos, com a conivência de uma FIFA de espinha dorsal de gelatina, anexou o regulamento esportivo aos interesses da Casa Branca. Quando um presidente levanta o telefone para ditar o destino de um cartão vermelho, ele não está apenas pedindo um favor; está decretando que, na nova ordem mundial, as regras são apenas sugestões para os desiguais.
A seletividade desse regime é de uma crueldade pedagógica. Enquanto o star system americano goza de imunidade diplomática — uma “anistia” baseada em um duvidoso Artigo 27 —, a seleção uruguaia foi submetida ao escárnio de cães farejadores. Seria o odor da autonomia uruguaia — ou sua postura civilizada frente à regulação da cannabis — um desafio à ordem puritana do Tio Sam? O silêncio da FIFA sobre o tratamento dado aos uruguaios, em contraste com a passividade diante das exigências americanas, mostra que a entidade não é neutra; ela é, simplesmente, uma empresa terceirizada do poder vigente.
E o que dizer da xenofobia de Estado? Impedir a entrada do melhor árbitro da África — um profissional de excelência — é o retrato da covardia. A FIFA, que se diz global, nem sequer moveu uma palha para realocar o juiz em solo mexicano ou canadense. Preferiu o descarte, a humilhação do outro, a aceitação submissa de que o “anfitrião” tem o direito de segregar quem ele quiser. É a mesma lógica que, décadas atrás, via no atleta negro a negação do mito ariano.
Mas a história, essa ironia ambulante, não perdoa a arrogância. Jesse Owens, em 1936, não precisou de discursos; seus pés bastaram para desmoronar a superioridade nazista na frente de Hitler. Em 2026, foi a vez da Bélgica — com a doçura letal de quem domina a técnica do chocolate — devolver aos EUA a realidade nua e crua. O fracasso americano não foi apenas esportivo; foi o naufrágio do seu projeto de supremacia. Ao serem eliminados, vimos o colapso de um sistema que achava que o mundo era sua extensão e que o futebol era apenas mais uma mercadoria para inflar o ego nacionalista.
O paralelo é inevitável e visceral. Hitler e Trump: dois homens que confundiram a realidade com o palco, que acreditaram que a violência, a beligerância e a desonestidade seriam ferramentas eternas de dominação. Ambos usaram o esporte como vitrine, e ambos acabaram por ver suas vitrines quebradas pela própria natureza indomável da competição.
Esta é a pior Copa da história. Um evento gigantesco, com estádios faraônicos e tecnologia de ponta, mas com uma alma pequena, mesquinha e purulenta. Uma Copa que não uniu povos, mas os mediu pela régua do poder. Enquanto a bola rolava, o espírito esportivo agonizava no banco de reservas, substituído por ligações telefônicas, cães farejadores e o silêncio covarde de quem deveria zelar pelo jogo. Ao final, resta-nos o amargo sabor de um chocolate belga: doce para quem tem dignidade, e indigesto para quem tentou, por um momento de delírio, comprar a história com o peso de sua própria prepotência.
