A Snap entra na disputa por um mercado dominado pela Meta e de olho no Google, apostando em óculos que mesclam o mundo real com elementos digitais sem isolar o usuário.
Specs projeta objetos 3D sobre o ambiente real, sem telas coladas ao olho
Realidade aumentada (RA) é a tecnologia que sobrepõe elementos digitais — imagens, textos, animações — à visão do mundo real, ao contrário da realidade virtual, que substitui completamente o ambiente ao redor. O que diferencia os Specs de outros dispositivos, segundo o CEO Evan Spiegel, é justamente como essa sobreposição é feita.
Óculos com telas integradas, como o Ray-Ban Display da Meta, criam “a impressão de ter uma pequena tela de celular colada no olho”, explicou Spiegel. Os Specs, por outro lado, analisam o ambiente ao redor do usuário para posicionar objetos digitais 3D que interagem com a cena real — uma abordagem mais próxima da RA plena do que da simples exibição de notificações numa lente.
O aparelho também se distancia dos chamados headsets de realidade mista — dispositivos maiores, como o Vision Pro da Apple, que cobrem todo o campo de visão e tendem a isolar o usuário do ambiente. Os Specs são óculos convencionais em formato, projetados para uso cotidiano.
Preço abaixo do Vision Pro, mas ainda fora do alcance da maioria
A US$ 2.195 (cerca de R$ 11,2 mil), os Specs custam menos de dois terços do Vision Pro da Apple, lançado a US$ 3.499 (R$ 17,8 mil) — e que foi descontinuado pela fabricante devido às baixas vendas. A Snap posiciona o preço como um esforço de democratização da tecnologia.
“Por US$ 2.195, podemos pegar essa tecnologia realmente avançada e tentar colocá-la nas mãos do maior número possível de pessoas”, disse Spiegel. Ainda assim, o valor equivale a mais de sete salários mínimos no Brasil, o que limita o alcance do produto para a maioria dos consumidores.
Spiegel recusou revelar margens de lucro, volumes de produção ou metas de vendas à agência AFP, afirmando que mede o sucesso dos Specs pela criatividade dos desenvolvedores que criarão aplicações para o dispositivo — e não por indicadores financeiros tradicionais.
Snap entra em disputa com Meta, Google e Samsung
O mercado de óculos inteligentes ainda está em formação. A Meta lidera o segmento com o Ray-Ban Display, enquanto o Google anunciou o lançamento de seus próprios óculos conectados para o final de 2025. A Samsung já comercializa um headset com o sistema operacional Android XR — desenvolvido pelo Google — desde outubro do ano passado.
A Snap se posiciona como a opção intermediária: mais sofisticada do que um acessório de celular e mais leve do que os headsets volumosos. A empresa apresentou os Specs na Augmented World Expo como os primeiros óculos de RA independentes voltados ao consumidor em geral — sem necessidade de estar conectado a um smartphone para funcionar.
Lançamento acontece em meio a cortes e prejuízos na Snap
O momento do lançamento é delicado para a companhia. A Snap opera com prejuízo desde seu IPO (abertura de capital na bolsa) em 2017, e em abril deste ano cortou 16% do quadro de funcionários — aproximadamente 1.000 vagas eliminadas. O Snapchat, principal produto da empresa, registrou quase 956 milhões de usuários ativos mensais no primeiro trimestre de 2025.
Os Specs representam uma aposta estratégica da Snap para se reinventar na chamada “era pós-smartphones” — um conceito que prevê que dispositivos vestíveis, como óculos inteligentes, passem a substituir gradualmente o celular como interface principal com o mundo digital. O sucesso ou fracasso do produto dependerá, em grande parte, do ecossistema de aplicativos que os desenvolvedores construirão sobre a plataforma.

