Café com Leite Foto: Reprodução
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A inclusão de café com leite na merenda de crianças a partir de 4 anos na rede municipal de ensino de São Paulo reacendeu um debate sensível entre especialistas em saúde, educação e políticas públicas. Embora a prática seja defendida pela Prefeitura como parte da cultura alimentar brasileira e uma estratégia para incentivar o consumo de leite, ela vai na contramão de recomendações de entidades médicas nacionais e internacionais, que orientam a exclusão total da cafeína na infância.

A controvérsia expõe um conflito entre tradição, gestão pública e ciência,  levantando uma questão central: até que ponto políticas alimentares escolares devem se apoiar em hábitos culturais quando há evidências de possíveis impactos negativos à saúde das crianças?

O que está sendo servido nas escolas

O café com leite aparece nos cardápios de escolas municipais de educação infantil, frequentadas por crianças entre 4 e 6 anos. A bebida é ofertada, em média, uma vez por semana, geralmente acompanhada de itens como biscoitos, frutas ou bolos.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, a preparação utiliza cerca de 1,5 grama de café solúvel por porção, o equivalente a aproximadamente 0,39 mg de cafeína — uma quantidade considerada baixa quando comparada ao consumo adulto.

A Secretaria Municipal de Educação (SME) afirma que o cardápio segue diretrizes nacionais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), e que a presença do café com leite se justifica por seu papel cultural, especialmente na região Sudeste. Além disso, o município sustenta que a principal intenção é garantir a ingestão de leite, fonte importante de cálcio para o desenvolvimento infantil.

O que dizem os especialistas

Apesar da justificativa institucional, a comunidade médica é praticamente unânime em relação ao tema. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que crianças menores de 12 anos não consumam cafeína em nenhuma quantidade.

O motivo não é apenas a presença do café em si, mas os efeitos da cafeína no organismo em desenvolvimento. Considerada um estimulante do sistema nervoso central, a substância pode provocar alterações no sono, ansiedade, irritabilidade e até interferir na absorção de nutrientes essenciais.

Estudos citados por especialistas apontam ainda que a cafeína pode impactar sistemas fisiológicos em formação, como o cardiovascular e o neurológico, além de apresentar maior potencial de efeitos adversos em crianças do que em adultos.

Outro ponto de preocupação é o chamado “efeito de porta de entrada alimentar”. Ao entrar em contato com o sabor do café na escola, a criança pode passar a demandar a bebida em casa, ampliando o consumo e seus possíveis impactos.

Cultura alimentar versus saúde pública

A defesa da Prefeitura se ancora em um argumento recorrente no debate alimentar: o café com leite faz parte da identidade cultural brasileira. De fato, o próprio Guia Alimentar para a População Brasileira inclui a bebida como opção de desjejum.

No entanto, especialistas alertam que o contexto infantil exige adaptações. A nutricionista ouvida na investigação ressalta que há alternativas mais adequadas para estimular o consumo de leite, como a combinação com frutas, sem a necessidade de introduzir substâncias estimulantes.

Além disso, a cafeína pode prejudicar a absorção de minerais como ferro e cálcio, justamente nutrientes fundamentais na fase de crescimento.

Um hábito histórico que mudou de significado

A presença do café na alimentação infantil não é exatamente uma novidade. Décadas atrás, era comum ver crianças consumindo a bebida, inclusive em campanhas publicitárias.

A diferença está no avanço do conhecimento científico. Hoje, há consenso sobre os efeitos da cafeína no organismo infantil, o que levou à revisão de práticas antes naturalizadas.

Esse descompasso entre tradição e evidência científica é o que torna o caso atual especialmente relevante. Ele não se limita a um item do cardápio escolar, mas reflete a necessidade de atualização constante das políticas públicas à luz do conhecimento técnico.

Falta de consenso e transparência

Outro ponto levantado por especialistas e famílias é a comunicação com os responsáveis. Em alguns casos, pais relataram surpresa ao descobrir a presença da bebida no cardápio escolar, o que levanta questionamentos sobre transparência e participação nas decisões alimentares das crianças.

Embora o cardápio seja público, disponível em plataformas oficiais, a discussão evidencia a distância entre o planejamento institucional e o acompanhamento cotidiano das famílias.

O que está em jogo

A discussão sobre o café com leite nas escolas de São Paulo vai além de uma escolha pontual de cardápio. Ela toca em temas estruturais, como o papel da escola na formação de hábitos alimentares, a responsabilidade do poder público na proteção da infância e a necessidade de alinhar políticas públicas às evidências científicas.

De um lado, a gestão municipal defende tradição, custo e aceitação alimentar. De outro, especialistas alertam para riscos que, embora não imediatos, podem ter efeitos cumulativos no desenvolvimento infantil.

No centro desse debate estão milhões de crianças em fase crucial de crescimento

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