|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
Por Odair Dias Filho
A Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil atravessa um dos períodos de maior expansão, modernização e projeção internacional de sua história. Impulsionado por aportes estratégicos do governo federal, pela inclusão inédita dos projetos militares na carteira do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e pelo avanço de Parcerias de Transferência de Tecnologia (ToT) de ponta, o país deixou para trás a condição de mero comprador de vetores militares para se firmar como um polo industrial de alta complexidade e um exportador global de tecnologias de defesa.
No centro dessa revolução tecnológica e soberana está o programa do caça supersônico F-39 Gripen (Gripen E/F). Resultado de uma parceria entre a Força Aérea Brasileira (FAB), a fabricante sueca Saab e a Embraer, a aeronave de caça de 5ª geração colocou o Brasil em um clube restrito e altamente seletivo de nações capazes de montar, integrar sistemas e fabricar vetores de combate supersônicos em seu próprio território.
O F-39 Gripen e o salto de soberania tecnológica
O Brasil é hoje o único país da América Latina a possuir uma linha de montagem e fabricação de caças supersônicos de última geração. O coração dessa operação está instalado no complexo industrial da Embraer em Gavião Peixoto (SP), que abriga a única linha de montagem final do Gripen fora da Suécia. Em paralelo, a fábrica da Saab Aeronáutica Brasil, em São Bernardo do Campo (SP), produz partes estruturais complexas, como a fuselagem dianteira e traseira, asas e cones de cauda.
O programa ultrapassou a simples montagem ao transferir know-how crítico para o país:
-
Transferência de Tecnologia (ToT): Mais de 350 engenheiros e técnicos brasileiros receberam treinamento prático na Suécia. Esse aprendizado permitiu a liderança nacional no desenvolvimento do Gripen F (a versão biplace de dois assentos) e a integração de sistemas e aviônica produzidos no Brasil por empresas parceiras, como a AEL Sistemas.
-
Potencial de Exportação: O complexo em São Paulo atua como o hub de fornecimento e exportação da plataforma Gripen para a América Latina e potenciais mercados parceiros, garantindo royalties, empregos qualificados e retorno econômico de longo prazo para o país.
Injeção de recursos: O PAC e a Nova Indústria Brasil (NIB)
Para sustentar essa guinada de autonomia estratégica, o governo federal articulou um arcabouço inédito de financiamento público e privado voltado à Base Industrial de Defesa, combinando diretrizes de reindustrialização com previsibilidade orçamentária:
-
Inclusão no Novo PAC (R$ 53 bilhões): Pela primeira vez na história recente, os Projetos Estratégicos das Forças Armadas foram integrados à infraestrutura de investimentos do Estado. Os recursos do PAC garantem o fluxo de pagamentos para o recebimento das unidades do F-39 Gripen, a continuidade dos programas nucleares e navais e o reaparelhamento terrestre.
-
Nova Indústria Brasil – Missão 6 (R$ 112,9 bilhões): O plano nacional de neoindustrialização estabeleceu uma meta específica voltada a tecnologias de interesse para a Soberania e Defesa Nacional. As linhas do BNDES e FINEP voltadas ao setor permitiram a atração e execução de mais de R$ 100 bilhões em investimentos para adensamento de cadeias produtivas de defesa, radares e segurança cibernética.
Estima-se que o ecossistema da indústria de defesa nacional responda atualmente por quase 4% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial do país, gerando mais de 290 mil empregos diretos e indiretos de altíssima qualificação.
Do C-390 Millennium ao Super Tucano: O sucesso de vendas globais
Embora o F-39 Gripen seja a joia da coroa do programa espacial e aéreo, a vitrine exportadora do Brasil expandiu-se com sucesso global em múltiplas frentes industriais:
-
Embraer C-390 Millennium: O cargueiro tático pesado e reabastecedor em voo de 26 toneladas consagrou-se como um dos maiores sucessos de venda da aviação militar ocidental. A aeronave brasileira venceu concorrências internacionais e foi selecionada como vetor padrão por diversos países membros da OTAN — incluindo Portugal, Holanda, Áustria, Hungria e República Tcheca —, além da Coreia do Sul, acumulando bilhões de dólares em contratos de exportação.
-
A-29 Super Tucano: O turboélice de ataque leve e treinamento avançado continua liderando o mercado global de defesa de fronteiras e operações contra-insurgência, operado por mais de 20 forças aéreas internacionais, incluindo a dos Estados Unidos, Filipinas e Colômbia.
-
PROSUB e Engenharia Naval: O Programa de Desenvolvimento de Submarinos, sediado no estaleiro de Itaguaí (RJ), garantiu o lançamento de submarinos convencionais da classe Riachuelo e o avanço da montagem do primeiro submarino brasileiro com propulsão nuclear (Álvaro Alberto), além da fabricação das Fragatas Classe Tamandaré em Itajaí (SC).
Um futuro de projeção global e autonomia
O fortalecimento da indústria de defesa brasileira nos últimos quatro anos reafirma a capacidade técnica da engenharia nacional. Ao associar política de inovação industrial, financiamento de longo prazo e parcerias internacionais com transferência efetiva de tecnologia, o Brasil não apenas guarneceu seu espaço aéreo e territorial, mas posicionou-se definitivamente como uma potência tecnológica global e um exportador de alto valor agregado para os mercados mais exigentes do mundo.

