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A vida se transformou radicalmente nos últimos 20 anos, entre 2006 e 2026. Pra se ter uma ideia, o smartphone comandado por toques na tela, o primeiro iPhone, só surgiu no ano seguinte, 2007.
A humanidade sobrevivia sem smartphones !!!
O PCC, naquele ano, marcava presença pela primeira vez com o Salve Geral de maio, em São Paulo, ataques que deixaram 565 mortos em 10 dias.
Um filme icônico, O Diabo Veste Prada, se colocou como a décima segunda bilheteria daquele ano no mundo.
Em 2026 o smartphone é a grande estrela da vida cotidiana nos quatro cantos do planeta. O PCC movimenta bilhões de dólares e passa a ter o status de organização terrorista internacional conferido por Donald Trump.
E o time daquele filme decide lançar uma continuação: O Diabo Veste Prada 2. Mesmo diretor, mesma roteirista, mesmo elenco.
No filme original havia uma abordagem filosófica da indústria da moda, fenômeno dos últimos 150 anos, desde que o costureiro inglês Charles Frederick Worth, radicado em Paris, começou, em 1858, a lançar coleções sazonais de roupas que levavam etiquetas com o nome dele.
A jornalista recém-formada Andy Sachs ganhava um emprego de sonho: assistente da lendária editora da revista de moda Runway, de Nova York, Miranda Priestly: Anne Hathaway e Meryl Streep. O diretor David Frankel, de alguns episódios de Sex and the City, conseguiu levar para o filme o diretor de fotografia e a figurinista da série, Florian Ballhaus e Patricia Field. Não tinha como dar errado.
Andy tem uma postura esnobe em relação à moda, como atividade frívola. Essa visão é desmontada num diálogo antológico em que Miranda mostra que ela recebeu influência da moda até para comprar e usar o suéter azul no tom cerúleo que ela pensa ter escolhido por simples praticidade.
A tensão entre a diferenciação pessoal e a universalidade, regulada pela moda, a busca por reconhecimento social por meio das vestimentas e acessórios e até essa influenciação aparentemente imperceptível ajudaram a construir o sucesso de O Diabo Veste Prada.
Em O Diabo veste Prada 2, a tentativa é a de retratar na vida daqueles personagens as mudanças profundas pelas quais o mundo passou e está passando.
A Runway está nas cordas por uma campanha de lacração nas redes sociais por uma reportagem elogiosa a uma empresa Speedfash, flagrada utilizando regime de trabalho análogo à escravidão. A arrogância absoluta de Miranda está sujeita às divertidas correções de linguagem impostas a ela pela nova assistente e pelas novas imposições da comunicação. Ninguém mais lê a revista impressa. A gestão personalista de Miranda está prestes a ser substituída pelas diretrizes desumanizadas dos consultores de produtividade.
Na degradação das matérias mais sensacionalistas da versão digital, Andy, agora jornalista investigativa reconhecida, é recontratada para ajudar a resgatar o prestígio antigo da Runway. Tem de buscar os milhões de cliques que atraem os anunciantes.
O idealismo resiliente da jornalista vai ser desafiado pelo poder atropelador dos novos bilionários digitais.
Essa crônica não vai dar nenhum spoiler. Só dizer que um filme que reúne talentos como os de Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci, Emily Blunt e até uma ponta de Kenneth Branagh sempre vai fazer da ida ao cinema uma vivência muito, muito prazerosa.
O alto valor simbólico que a moda confere a roupas e acessórios está diretamente associado à genialidade de costureiros e designers. De maneira exatamente igual, a excelência de um filme continua sendo atribuição do desempenho da direção, do roteiro e da equipe técnica mas, principalmente, dos astros e estrelas do elenco.
