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Mundo – Empresas de energia e tecnologia estão ampliando pesquisas no subsolo em busca de uma fonte considerada promissora para a transição energética: o hidrogênio geológico. Produzido naturalmente na crosta terrestre, o combustível desperta interesse por poder ser mais limpo e mais barato do que os métodos atuais de produção de hidrogênio.
O tema ainda está em estágio inicial, mas especialistas apontam potencial para transformar setores que enfrentam dificuldades para reduzir emissões de carbono, como transporte marítimo, siderurgia e indústria química.
No Canadá, uma startup chamada Vema Hydrogen começou testes subterrâneos na região de Thetford Mines, em Quebec, onde trabalhadores perfuram rochas ricas em ferro para estimular reações químicas capazes de gerar hidrogênio sem emissão de gases poluentes.
O que é o hidrogênio geológico
O hidrogênio é o elemento mais abundante do universo e pode ser produzido naturalmente quando minerais ricos em ferro entram em contato com água no interior da Terra. Esse processo químico é conhecido como serpentinização.
Durante décadas, cientistas acreditaram que o hidrogênio produzido dessa forma dificilmente se acumularia em grandes quantidades no subsolo, já que suas moléculas pequenas poderiam escapar facilmente pelas fissuras das rochas.
Nos últimos anos, porém, novas pesquisas começaram a mudar essa visão. Estudos publicados por cientistas indicam que reservatórios subterrâneos de hidrogênio natural podem existir em diferentes partes do planeta e ter capacidade para abastecer o consumo global por centenas de anos.
Empresas aceleram exploração subterrânea
A corrida pelo chamado “hidrogênio branco” já movimenta startups e investidores internacionais.
A canadense Vema Hydrogen perfurou poços de aproximadamente 300 metros de profundidade em Quebec e começou a injetar água tratada em formações rochosas para acelerar a produção natural do gás.
Segundo Pierre Levin, CEO da empresa, o potencial pode ser global.
“Você pode encontrar rochas como essas em todo o mundo, o suficiente para produzir bilhões de toneladas de hidrogênio”, afirmou.
Outras empresas também avançam no setor. A startup Koloma, por exemplo, levantou cerca de US$ 400 milhões em investimentos e realiza perfurações exploratórias nos Estados Unidos. Já a HyTerra conduz pesquisas nos estados do Kansas e Nebraska em busca de hidrogênio e hélio.
Especialistas comparam o momento atual aos primeiros anos da exploração de petróleo, quando companhias perfuravam diversos poços sem garantia de sucesso comercial.
Hidrogênio limpo pode reduzir custos da transição energética
Atualmente, a maior parte do hidrogênio usado no mundo é produzida a partir de gás natural, processo que gera emissões de carbono.
Nos últimos anos, governos passaram a incentivar o chamado hidrogênio verde, produzido com energia renovável. Apesar do avanço tecnológico, o custo ainda é considerado elevado.
Estimativas do Departamento de Energia dos Estados Unidos indicam que o hidrogênio geológico poderia custar menos de US$ 1 por quilograma, tornando-se mais barato do que alternativas atuais.
Esse cenário chama atenção principalmente de setores industriais que enfrentam dificuldade para substituir combustíveis fósseis.
Na prática, o hidrogênio pode ser utilizado para produção de fertilizantes, combustível para navios, siderurgia, aviação e processos químicos industriais.
Desafios ainda preocupam pesquisadores
Apesar do entusiasmo, cientistas alertam que existem obstáculos importantes antes que a tecnologia se torne viável em larga escala.
Ainda não há certeza sobre a quantidade real de hidrogênio acumulada no subsolo nem sobre a capacidade de extração econômica do combustível. Além disso, especialistas apontam riscos ambientais e técnicos, como vazamentos subterrâneos, alterações geológicas e até pequenos tremores causados pela injeção de água em rochas profundas.
Outro desafio envolve transporte e armazenamento. O hidrogênio é considerado difícil de transportar, o que pode exigir que sua utilização aconteça próxima dos locais de produção.
Mesmo assim, pesquisadores afirmam que os avanços recentes mudaram a percepção sobre o setor.
“Hoje sabemos que definitivamente é possível produzir hidrogênio no subsolo. A questão agora é tornar isso economicamente viável”, afirmou a professora Alexis Templeton, da Universidade do Colorado.
Mercado aposta em combustível para reduzir emissões
O interesse pelo hidrogênio geológico cresce em meio à pressão global para reduzir emissões de gases de efeito estufa e acelerar a transição energética.
Empresas do setor marítimo, por exemplo, estudam usar metanol verde produzido com hidrogênio limpo como alternativa aos combustíveis derivados de petróleo.
Especialistas avaliam que, caso os projetos avancem comercialmente, o hidrogênio geológico poderá se tornar uma peça importante no futuro da energia limpa, especialmente em setores industriais considerados difíceis de descarbonizar.

