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endividamento no Brasil
Reprodução Joédson Alves/Agência Brasil
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Economia – O aumento do parcelamento de compras do dia a dia e o uso frequente do crédito para complementar a renda têm ampliado o volume de endividamento das famílias brasileiras. Especialistas alertam que a facilidade para parcelar despesas comuns, como supermercado, farmácia e combustível, pode criar um ciclo perigoso de inadimplência e desorganização financeira.

Dados do Banco Central mostram que a inadimplência das famílias chegou a R$ 238,5 bilhões em março de 2026, o equivalente a 5,3% de todo o crédito concedido no país. Já a Serasa Experian estima que 81,7 milhões de brasileiros estejam inadimplentes atualmente.

Parcelamento virou rotina no consumo

A possibilidade de dividir compras em várias parcelas sem juros se tornou uma prática comum no cotidiano dos consumidores. O problema, segundo especialistas, é quando o crédito deixa de ser usado para bens duráveis e passa a financiar despesas básicas do mês.

A socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), afirma que muitas famílias estão recorrendo ao crediário para manter o orçamento funcionando.

“O crédito é importante porque financia bens de consumo duráveis e bens de maior valor”, explica a especialista. Para ela, o uso contínuo do parcelamento em gastos essenciais pode comprometer a renda futura e aumentar a dependência financeira.

Excesso de estímulos impulsiona compras

Além da facilidade do crédito, economistas apontam que o consumo acelerado também está ligado ao excesso de estímulos publicitários e ao impacto das redes sociais.

A economista Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que existe uma “ansiedade de consumo” cada vez mais presente entre os brasileiros.

Segundo ela, o desejo de antecipar compras é alimentado constantemente por propagandas, influenciadores digitais e campanhas promocionais. Na prática, muitas pessoas analisam apenas se a parcela cabe no orçamento imediato, sem calcular o impacto acumulado das dívidas futuras.

Juros altos aumentam risco de inadimplência

Quando o consumidor perde o controle financeiro, cresce a chance de recorrer às modalidades mais caras do mercado, como cheque especial e crédito rotativo do cartão.

O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, destaca que o brasileiro costuma pesquisar preços de produtos, mas raramente compara os juros embutidos nas formas de pagamento.

“O consumidor avalia se consegue pagar a parcela, mas muitas vezes ignora o custo real do financiamento”, alerta.

Limite do cartão não é aumento de renda

Outro erro frequente, segundo especialistas, é considerar o limite do cartão de crédito como parte da renda mensal.

A economista Isabela Tavares, da Consultoria Tendências, explica que o valor disponível no cartão não representa dinheiro extra.

“Quem ganha R$ 5 mil e possui R$ 5 mil de limite no cartão não tem renda de R$ 10 mil”, afirma.

Ela destaca que famílias de menor renda acabam mais vulneráveis ao endividamento porque têm menos acesso a linhas de crédito mais baratas, recorrendo frequentemente a empréstimos com juros elevados.

Educação financeira ganha importância

Especialistas defendem que a educação financeira é uma das principais ferramentas para evitar o crescimento da inadimplência no país.

O planejador financeiro Carlos Castro avalia que programas emergenciais, como renegociação de dívidas, ajudam momentaneamente, mas não resolvem o problema estrutural.

Segundo ele, o desafio está em ensinar a população a controlar gastos, compreender juros e planejar o orçamento antes de assumir novos financiamentos.

Enquanto o crédito segue cada vez mais acessível, economistas alertam que o consumidor precisa aprender a diferenciar oportunidade de consumo de armadilha financeira. Em tempos de compras rápidas e parcelas invisíveis, o risco de transformar o cartão em extensão do salário virou uma bomba silenciosa no orçamento de milhões de brasileiros.

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