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Brasil – Um documento classificado como secreto durante a ditadura militar brasileira aponta que agentes ligados ao aparato de repressão do regime participaram de treinamentos no Reino Unido durante a década de 1970, período considerado um dos mais violentos da repressão política no Brasil.
Segundo reportagem divulgada pelo ICL Notícias e confirmada pela CNN Brasil, o material descreve técnicas de interrogatório, isolamento e tortura ensinadas por integrantes do MI5 a oficiais brasileiros.
Documento detalha treinamento de agentes brasileiros
O relatório, chamado “Estágio de Informações da Inglaterra”, afirma que integrantes do extinto Serviço Nacional de Informações e do Centro de Informações do Exército participaram de treinamentos militares em cidades britânicas.
De acordo com o documento, os cursos ocorreram a convite do governo britânico e com participação do BIS, serviço de inteligência do Reino Unido.
O arquivo descreve práticas ensinadas aos oficiais brasileiros ligadas a:
- interrogatórios;
- técnicas de isolamento;
- privação de sono;
- manipulação psicológica;
- métodos de pressão física e mental.
Técnicas descritas envolvem privação e isolamento
Segundo o relatório, oficiais brasileiros passaram por treinamentos em uma escola de comandos do Exército britânico.
Um dos trechos descreve exercícios nos quais os participantes eram deixados:
- nus;
- expostos ao frio;
- sem alimentação adequada;
- sem comunicação;
- submetidos a ruído constante.
O objetivo, segundo o documento, era demonstrar como funcionava o processo psicológico de quebra de resistência de prisioneiros.
“Em 24 horas, o elemento passa a cooperar”, afirma um trecho do arquivo revelado pela reportagem.
O documento também cita celas isoladas, iluminação intensa, ausência de refrigeração, alimentação precária e uso de microfones ocultos em salas de interrogatório.
Oficiais brasileiros são citados no relatório
Entre os nomes mencionados no material aparecem:
- Milton Machado Martins;
- Moacyr Coelho;
- Milton Masselli Duarte;
- Cyro Guedes Etchegoyen.
Segundo a apuração, o documento estava sob posse de Etchegoyen.
Ditadura militar intensificou repressão nos anos 1970
O período citado pelo relatório coincide com os chamados “anos de chumbo” da ditadura militar brasileira, iniciada após o Golpe militar de 1964.
Na década de 1970, órgãos de repressão ligados ao Estado foram acusados de utilizar tortura, perseguição política, desaparecimentos forçados e espionagem contra opositores do regime.
O SNI funcionou como principal órgão de inteligência da ditadura até o fim do regime militar, encerrado em 1985. O órgão foi extinto oficialmente em 1990.
Já o CIE continuou existindo após a redemocratização, passando por reformulações estruturais.
Revelação reacende debate sobre cooperação internacional
A divulgação do documento reacendeu discussões sobre o apoio internacional recebido por regimes militares latino-americanos durante a Guerra Fria.
Pesquisadores e especialistas em direitos humanos apontam que arquivos históricos ainda podem revelar novas conexões entre governos estrangeiros e órgãos de repressão na América Latina durante o período.
O conteúdo do relatório deverá integrar novos debates acadêmicos e investigações sobre a atuação de serviços de inteligência durante a ditadura brasileira.

