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A Polícia Federal investiga se o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, recebeu pagamentos mensais atribuídos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no âmbito da Operação Compliance Zero. O parlamentar foi um dos alvos da quinta fase da operação, deflagrada nesta quinta-feira (7), com autorização do Supremo Tribunal Federal.
Segundo a investigação, os repasses teriam variado de R$ 300 mil a R$ 500 mil por mês. As suspeitas surgiram a partir de mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e ao primo dele, Felipe Cançado Vorcaro, apontado como operador financeiro dos pagamentos. Felipe foi preso temporariamente durante a operação.
Em uma das conversas citadas pela investigação, Felipe teria perguntado a Daniel se deveria continuar pagando R$ 300 mil mensais pela chamada “parceria BRGD/CNLF”. Em outro diálogo, de junho de 2025, após uma cobrança sobre atraso nos repasses, Felipe questionou: “Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”. Para a PF, as mensagens indicam pagamentos recorrentes ao senador.
A estrutura investigada envolve a BRGD S.A., ligada à família Vorcaro, e a CNLF Empreendimentos Imobiliários, apontada como empresa vinculada a Ciro Nogueira e administrada formalmente por seu irmão, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima. De acordo com os investigadores, a BRGD seria a origem dos recursos, enquanto a CNLF receberia os valores.
Raimundo Neto também foi alvo da operação. Conforme as informações divulgadas, o ministro André Mendonça, do STF, determinou o uso de tornozeleira eletrônica, além de restrições como a proibição de se ausentar da comarca de residência e a suspensão de atividades de natureza econômica ou financeira.
A Polícia Federal também apura se Ciro Nogueira teria usado o mandato parlamentar para defender interesses ligados ao Banco Master. Um dos pontos centrais da investigação é a emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, apresentada pelo senador em agosto de 2024. A proposta buscava elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, o FGC, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.
De acordo com a PF, o texto da emenda teria sido elaborado por integrantes ligados ao Banco Master e entregue ao senador. Após a apresentação, Daniel Vorcaro teria comemorado que a proposta saiu “exatamente” como havia enviado, enquanto interlocutores do banco avaliavam que a medida poderia ampliar de forma expressiva os negócios da instituição.
A Operação Compliance Zero investiga um suposto esquema bilionário de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master, incluindo suspeitas de emissão de títulos de crédito falsos, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Nesta nova fase, foram cumpridos 10 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária em estados como Piauí, São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal. Também houve bloqueio de bens, direitos e valores no montante de R$ 18,85 milhões, segundo informações divulgadas sobre a operação.
Além dos supostos repasses mensais, a investigação menciona possíveis vantagens por meio de operações societárias. Uma delas envolve a CNLF, que teria adquirido 30% da Green Investimentos S.A. pelo valor de R$ 1 milhão. Para os investigadores, a operação pode ter sido usada como forma de repasse indireto de vantagens.
Quem é Ciro Nogueira
Ciro Nogueira é senador pelo Piauí, empresário, formado em Direito pela PUC-Rio e presidente nacional do Progressistas desde 2013. Antes de chegar ao Senado, foi deputado federal por quatro mandatos. Ele assumiu uma cadeira no Senado em 2011 e foi reeleito em 2018.
Na política nacional, Ciro já circulou por diferentes campos de articulação. Foi aliado da ex-presidente Dilma Rousseff, mas votou a favor do impeachment dela. Depois, se tornou um dos principais aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, assumindo o cargo de ministro-chefe da Casa Civil entre agosto de 2021 e dezembro de 2022.
Atualmente, além de senador, Ciro Nogueira comanda o Progressistas, partido com forte presença no Congresso Nacional. Com a nova fase da Operação Compliance Zero, ele passou a ser investigado em uma apuração que liga o mandato parlamentar a possíveis interesses do Banco Master.
O que diz a defesa
A defesa de Ciro Nogueira repudiou a operação e afirmou que o senador não teve participação em atividades ilícitas nem nos fatos investigados. Os advogados também disseram que ele está à disposição para prestar esclarecimentos e contribuir com a Justiça.
O caso segue sob investigação da Polícia Federal, com medidas autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal. Até o momento, as suspeitas ainda estão em fase de apuração, e cabe às autoridades esclarecer se houve crime, quem participou e qual foi o papel de cada investigado.
