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Durante o show do intervalo do Super Bowl LX, realizado no domingo (8) no Levi’s Stadium, na Califórnia, o cantor porto-riquenho Bad Bunny protagonizou uma apresentação marcada por referências à cultura latina, críticas sociais e uma estética carregada de simbolismo. O espetáculo provocou reações, inclusive do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que classificou a performance como “uma afronta à grandeza da América”.
Ao som de “Tití Me Preguntó”, Bad Bunny deu início ao show com a frase “Qué rico es ser latino”, preparando o público para uma viagem a Porto Rico. Com o palco transformado por palmeiras e folhagens tropicais, o artista surgiu vestindo branco e segurando uma bola de futebol americano, em referência à cultura local. Seu microfone, no formato de fone de ouvido, foi uma homenagem ao cantor Chayanne, ícone da música latina.
Um dos destaques do show foi a estreia de “La Casita”, réplica de uma casa tradicional porto-riquenha, que serviu como palco secundário e espaço de acolhimento. Celebridades como Cardi B, Karol G, Pedro Pascal, Young Miko e Jessica Alba estiveram presentes, reforçando a proposta de celebração comunitária. O cenário simbolizou as raízes do reggaeton e a resistência cultural das comunidades da classe trabalhadora da ilha.
Na sequência, Bad Bunny apresentou “Yo Perreo Sola”, música que virou hino contra o assédio e pela liberdade das mulheres, reafirmando sua postura progressista e feminista. Em “NUEVAYoL”, o cantor defendeu os imigrantes e a diáspora porto-riquenha em Nova York, em crítica direta às políticas migratórias dos EUA. Imagens no telão relembraram o discurso “ICE out”, feito por ele no Grammy, contra a atuação do Serviço de Imigração e Alfândega norte-americano.
Outro momento impactante foi a participação surpresa de Ricky Martin em “Lo Que Le Pasó a Hawaii”, música que denuncia a colonização e a gentrificação, usando o Havaí como metáfora para o futuro de Porto Rico. A bandeira porto-riquenha com triângulo azul claro — símbolo da luta independentista — foi exibida durante o show, assim como uma mensagem unificadora: “Juntos somos a América”, acompanhada da citação de países do continente, do Chile ao Canadá.
O Sapo Concho, espécie nativa de Porto Rico ameaçada de extinção, apareceu no telão como símbolo da luta por preservação ambiental e identidade cultural.
A apresentação gerou forte reação de Donald Trump. O presidente publicou em suas redes que o show foi “um dos piores de todos os tempos”, criticando o fato de Bad Bunny cantar em espanhol e chamando a dança de “repugnante”. Trump afirmou que “ninguém entende uma palavra” e que o espetáculo seria “um tapa na cara do país”.

Em resposta, apoiadores de Trump organizaram um show paralelo, o “The All-American Halftime Show”, com artistas como Kid Rock, promovido pelo grupo conservador Turning Point USA. O evento alternativo apostou em ícones da música country e estética patriótica.
A performance de Bad Bunny ocorre em um momento de intensas tensões políticas nos Estados Unidos, especialmente relacionadas à imigração. Protestos contra o ICE, após mortes causadas por agentes da imigração, aumentaram nas últimas semanas. Embora o órgão tenha sido inicialmente apontado como parte da segurança do Super Bowl, a NFL afirmou que ele não teve participação oficial no evento.
A escolha de Bad Bunny como atração principal do intervalo do Super Bowl — uma das maiores audiências da televisão americana — representou um marco para a cultura latina e um posicionamento político claro. Ao manter sua arte enraizada na identidade porto-riquenha, o artista se recusa a adaptar-se aos moldes do mainstream, transformando seu espaço em vitrine de resistência, orgulho e pertencimento.

