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Três tragédias. Todas evitáveis
A primeira aconteceu no dia 25 de janeiro, um domingo, em São Paulo. Era o aniversário da cidade mais importante – e mais rica – do país. Chovia forte. O aposentado Romeu Maccione Neto, 75 anos, saiu de casa para tentar salvar o carro, que começava a ser arrastado pela enchente. Caiu e foi levado pela enxurrada. Os vizinhos registraram a cena em vídeo mas não conseguiram evitar o arrastamento. Romeu foi encontrado morto preso a um outro automóvel a mais ou menos 100 dali.
Tem mudança climática? Tem.
Tem chuva muito forte e concentrada? Tem.
A cidade é muito impermeabilizada? É.
O sistema de drenagem no bairro dele, Vila Guilherme, está saturado? Está.
Nós elegemos prefeitos e vereadores que nunca cuidaram direito disso? Elegemos.
Tudo isso é responsabilidade nossa, coletiva. E ainda tem o agravante de não termos até hoje aprendido com os japoneses da Copa de 2014 a recolher nosso lixo nos locais adequados. Continuamos entupindo bocas-de-lobo e agravando enxurradas como essa que arrastou e matou Romeu Maccione Neto.
A segunda tragédia aconteceu em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, também no final de janeiro. João Volmar Siqueira, 64 anos, dirigia na estrada quando o capô do carro abriu. Estava sobre um viaduto. Ligou o pisca alerta e saiu do carro para fechar o capô porque tinha ficado sem visibilidade. Um outro carro que vinha atrás bateu no carro do João, ele foi arremessado para a parte de baixo do viaduto e morreu.
João poderia ter usado o triângulo? Poderia.
A motorista do carro de trás poderia estar mais atenta e desviar? Talvez.
Mas o correto aí seria um treinamento mais intenso, uma habilitação mais rigorosa dos motoristas. Quem já fez curso de direção defensiva, sabe: Nunca pare sobre um viaduto ou uma ponte. Eles não têm acostamento. E essa informação, básica, poderia ter salvado a vida de João Volmar.
As autoridades brasileiras pensam assim? Não. A obtenção da carteira de habilitação ao invés de ficar mais rigorosa, ficou muito mais frouxa. Não exige mais treinamento em auto-escola. E em São Paulo o teste da baliza acaba de ser eliminado.
A terceira tragédia aconteceu em Itapevi, na Grande São Paulo, na segunda-feira (2/2). Um menino de 4 anos caminhava pela calçada com o pai quando um muro desabou sobre ele. O menino morreu.
Houve imperícia de um operador não habilitado de uma retroescavadeira? Houve.
O dono da empresa deveria ter contratado alguém com a habilitação necessária para o serviço? Deveria.
Mas o que não houve foi uma providência simples e que deveria ser obrigatória: o isolamento da área. Pai e filho caminhavam num local que deveria estar interditado. É simples. É barato. Três ou quatro cavaletes de madeira e uma fita plástica amarela e preta. O menino não estaria passando ao alcance da imperícia do operador não-habilitado. O menino estaria vivo.
Pra nós, fica a advertência: avaliar os riscos, tomar as providências necessárias. Prevenir. São coisas simples que poderiam ter evitado a tragédia, o luto, a tristeza e o sofrimento que se abateu sobre as famílias do Romeu, do João Volmar e do menino de 4 anos.
