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voltar a estudar
Reprodução internet
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Juiz de Fora – Depois de quase três décadas longe das salas de aula, Kátia Cilene, de 48 anos, e Wanderson dos Santos, de 55, chegaram à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O casal deixou os estudos ainda na juventude para trabalhar, mas decidiu retomar a formação anos depois e encontrou na Educação de Jovens e Adultos (EJA) o caminho para concluir o ensino médio.

A trajetória até a universidade começou de maneiras diferentes para os dois. Kátia deixou a escola aos 14 anos, depois de engravidar, e passou a trabalhar para sustentar a família. Ao longo dos anos, teve cinco filhos e enfrentou dois divórcios.

Wanderson também precisou abandonar os estudos aos 15 anos para trabalhar e ajudar a família. Décadas depois, a decisão de Kátia de voltar à escola acabou incentivando o companheiro a fazer o mesmo.

Os dois concluíram o ensino médio pela EJA, participaram do GARRA, Cursinho Popular da UFJF, e se prepararam para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Atualmente, estão no segundo período do Bacharelado em Humanidades da universidade.

Kátia encontrou na educação uma nova possibilidade

A relação de Kátia com os estudos foi interrompida ainda na adolescência. Ela estava no nono ano do ensino fundamental quando engravidou, aos 14 anos.

Para trabalhar e cuidar da família, precisou deixar a escola e atuar como empregada doméstica. Anos mais tarde, depois de dois divórcios e cinco filhos, decidiu retomar um projeto que havia ficado adormecido.

A primeira tentativa de voltar às salas de aula aconteceu aos 44 anos. Para Kátia, porém, a decisão também representava uma forma de conquistar mais autonomia.

Foi durante esse período que ela conheceu Wanderson, que se tornou amigo e companheiro na rotina entre trabalho, igreja e escola.

Inicialmente, Kátia pretendia apenas concluir o ensino médio e, posteriormente, estudar teologia. Uma oportunidade, entretanto, mudou seus planos.

Ela foi sorteada para participar de um curso de escrita na UFJF. Ao frequentar a universidade, começou a enxergar aquele ambiente como um espaço que também poderia ocupar.

“Aquele espaço era pra mim também por direito e essa possibilidade se tornou tão real, tão presente, tão perto de mim, que eu falei: isso que eu quero, eu vou estudar, vou terminar o ensino médio, vou fazer o ENEM e eu quero fazer uma graduação.”

A experiência também ajudou Kátia a definir a área que gostaria de seguir. Interessada por filosofia, sociologia e história, ela optou pelas Ciências Humanas.

“Eu gosto muito de filosofia, gosto muito de sociologia, de história. Então a área das humanas, eu tenho paixão por elas.”

Wanderson decidiu acompanhar a companheira

Wanderson havia deixado a escola aos 15 anos para trabalhar. Depois de 28 anos distante da educação formal, decidiu voltar aos estudos quando percebeu o empenho de Kátia.

Ele passou pelo Centro de Estudos Supletivos (CESU), depois ingressou na EJA e, posteriormente, no cursinho popular da UFJF.

“Eu comecei no Centro de Estudos Supletivos (CESU), do CESU fui para o EJA. Do EJA para o GARRA, uma equipe maravilhosa. Fizemos a preparação e estamos aqui na UFJF.”

A preparação para o Enem foi uma etapa importante para que o casal chegasse ao ensino superior. A escolha pelo Bacharelado em Humanidades ocorreu também a partir das orientações recebidas dos professores do GARRA.

Segundo Wanderson, começar por um curso com formação ampla permitiu que os dois conhecessem melhor o ambiente universitário e identificassem os caminhos que pretendem seguir.

Para ele, estar na UFJF representa uma experiência que durante muitos anos parecia distante.

“Pra mim foi um marco na história, porque eu praticamente nasci nessa universidade. Eu sou nascido e criado no Dom Bosco e nunca imaginei que eu ia chegar nessas possibilidades que a gente está tendo.”

Educação também virou parceria

A volta aos estudos trouxe novos desafios para o casal. Conciliar trabalho, escola e preparação para o vestibular exigiu persistência.

Kátia conta que o apoio de Wanderson foi importante principalmente nos dias em que o cansaço tornava mais difícil seguir a rotina.

“Vencer o cansaço para sair de um dia de oito horas de trabalho e ir para a escola estudar é muito difícil. Então ele me ajudou e me ajudou muito.”

A parceria construída durante a EJA também se transformou em relacionamento. Os dois passaram a dividir não apenas a vida pessoal, mas também as dificuldades e conquistas da trajetória acadêmica.

Já na universidade, Wanderson se surpreende com experiências que antes pareciam inacessíveis, como frequentar o Restaurante Universitário.

Para ele, ocupar esses espaços representa uma conquista que vai além do diploma.

“A gente fica até emocionado. A gente fica olhando esses jovens e eu falo: ‘gente, aproveita essa oportunidade, porque eu não tive, né? Agora, depois de 28 anos, eu estou tendo’.”

O casal quer levar a experiência para outras pessoas

Para Kátia e Wanderson, a chegada à universidade não significa apenas a realização de um objetivo pessoal. Os dois também querem incentivar outras pessoas que interromperam os estudos a retomarem seus projetos.

Wanderson conta que alguns amigos que também precisaram abandonar a escola já demonstraram interesse em voltar a estudar.

“A gente parece um espelho para eles. Eu puxo eles também.”

O estudante pretende seguir carreira como professor de história. Kátia, por sua vez, planeja escrever um livro e fazer mestrado em Ciências Sociais.

Ela também quer utilizar o conhecimento adquirido na universidade para contribuir com a comunidade onde vive e aproximar outras pessoas do ensino superior.

“Eu tenho esse desejo também, de levar a universidade para as comunidades, para as escolas públicas, e mostrar que aquele espaço, aquele ambiente também é direito deles.”

“Existe o momento”, diz Kátia

A trajetória dos dois também mudou a maneira como enxergam a própria capacidade.

Para Kátia, retornar aos estudos depois de tantos anos significou descobrir que ainda poderia estabelecer novos objetivos para a própria vida.

“É uma sensação de que eu sou capaz, que foi possível! Que bom que eu acreditei.”

A estudante acredita que quem deseja voltar a estudar não deve esperar pelas condições consideradas ideais.

“Acredite em você, acredite nos seus sonhos e vai. Vai com força, vai com foco, vai com esperança, vai do jeito que está, não espera o melhor momento, porque eu acho que não existe o melhor momento, acho que existe o momento.”

Enquanto seguem a graduação na UFJF, Kátia e Wanderson mantêm os planos para o futuro. Ele quer se tornar professor e incentivar os filhos e amigos a continuarem estudando. Ela pretende avançar na formação acadêmica e transformar a própria experiência em uma forma de abrir caminhos para outras pessoas.

A história do casal começou com uma volta à sala de aula depois de décadas. Agora, os dois seguem juntos por um caminho que inclui universidade, novos projetos e a possibilidade de transformar uma oportunidade individual em inspiração para outras trajetórias.

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