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Por Odair Dias Filho
Falar de Leci Brandão é adentrar o território sagrado da história, da resistência e da dignidade do povo brasileiro. Numa época em que a superficialidade muitas vezes tenta apagar a memória, a indicação do álbum “50 Anos de Carreira” ao Grammy Latino 2026, na categoria de Melhor Álbum de Samba/Pagode, chega não apenas como um reconhecimento artístico, mas como um ato de inteireza histórica. Em seus bem vividos 82 anos de idade, coroados por meio século de arte, militância e cidadania, Leci nos lembra o verdadeiro papel da música: dar voz aos invisibilizados e ecoar as dores e as alegrias das periferias deste país.
A Poesia Crítica e o Canto da Realidadade
A obra de Leci Brandão nunca coube nos limites estreitos de um palco comercial. Ela sempre foi crônica, denúncia e abraço. Como compositora, Leci esculpiu versos que desnudam a desigualdade estrutural do Brasil sem perder a ternura ou a esperança na luta coletiva. É impossível dissociar sua pena do chão da favela, do terreiro e da rua.
No álbum indicado, essa força se renova e pulsa viva. É o que ouvimos nos versos cortantes e atemporais de sua crônica urbana mais definitiva:
“A favela vai abaixo / Com a paralisação / Pois o Zé do Caroço é o orador / Do Sindicato dos Trabalhadores / E a polícia chegou pra dispersar o povaréu…”
Nesse retrato cru de “Zé do Caroço”, Leci eternizou a liderança comunitária e a eterna vigilância contra a repressão estatal. Mas a mesma caneta que denuncia a opressão é a que exalta a ancestralidade e o orgulho negro, ecoando a força imortal de nossa história:
“Zumbi dos Palmares não morreu / A semente que ele plantou cresceu / No quilombo da resistência / Na força da nossa crença…”
Pioneirismo, Compositores e a Força da Mulher Negra
Construir meio século de carreira em um mercado fonográfico historicamente excludente exigiu de Leci Brandão uma coragem monumental. Nos anos 1970, ao romper barreiras machistas e se tornar a primeira mulher a integrar a prestigiada ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira, ela escancarou portas para que outras compositoras pudessem existir.
Sua obra é fruto de uma rede coletiva de afeto e genialidade. Ao lado de seus próprios hinos, o projeto celebra a comunhão com baluartes e parceiros históricos do samba de raiz, reverenciando mestres como Almir Guineto e Arlindo Cruz, além de dialogar com as matrizes africanas que sustentam a espinha dorsal da cultura nacional.
Essa trajetória de honra já lhe rendeu condecorações imprescindíveis, como o Prêmio da Música Brasileira, o Prêmio Zumbi dos Palmares na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) — onde também exerceu mandatos marcantes em defesa dos direitos humanos, da igualdade racial e da cultura —, além de títulos de cidadã honorária por todo o país.
Quem Ganha o Prêmio Somos Nós
Ver Leci Brandão ser abraçada por uma indicação internacional do porte do Grammy Latino, exatamente aos 82 anos, é a prova cabal de que a coerência política e a excelência artística caminham juntas.
Leci nunca negociou seus princípios, nunca virou as costas para o povo e transformou sua arte em trincheira de liberdade. Por isso, mais do que uma honraria individual, esta indicação consagra a luta de todas as mulheres negras, de todos os sambistas de raiz e de cada brasileiro que acredita na cultura como instrumento de emancipação.
Como bem traduz a essência de sua obra, quando uma voz como a de Leci Brandão alcança esse patamar de reconhecimento global, a vitória não é apenas dela: quem ganha o prêmio somos nós.
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