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Deus e o imagem
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Por Odair Dias Filho

A cultura brasileira perdeu um de seus maiores arquitetos. Aos 98 anos, Luiz Carlos Barreto, o eterno Barretão, saiu de cena após um período de saúde debilitada, mas não sem antes deixar um legado que se confunde com a própria fundação do audiovisual moderno no país. Produtor, diretor, fotógrafo, articulador político e visionário, Barreto construiu uma obra que permanecerá como pilar definitivo da nossa identidade cultural.

A partida do cineasta encerra um ciclo de resistência e genialidade. Sua saúde havia começado a declinar em março de 2024, após sofrer uma queda acidental no Ceará, seu estado natal, para onde havia viajado para receber uma das muitas justas homenagens em vida. Desde então, o gigante que nunca parava passou a viver sob intensos cuidados, deixando os sets de filmagem para se tornar, definitivamente, história.

O Perfil de um Diplomata e o Compromisso com o Brasil

Seu perfil era a síntese de um realizador incansável e de um diplomata nato. Com uma sagacidade ímpar e carisma arrebatador, sua marca registrada sempre foi o compromisso inegociável com a cultura nacional. Barretão entendia que o Brasil precisava se enxergar nas telas de cinema, não através de narrativas importadas, mas com a crueza, a riqueza e a complexidade de sua própria essência.

Ele não apenas abriu as portas da indústria; ele construiu a própria casa do cinema nacional, lutando por políticas de incentivo, cotas de tela e pelo respeito à nossa arte frente ao mercado internacional.

A Revolução Estética do Cinema Novo

A questão estética é, sem dúvida, um dos capítulos mais fascinantes de sua trajetória. No movimento do Cinema Novo — que pregava “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” para mostrar o Brasil real — Barreto foi a engrenagem visual da revolução.

Para filmar clássicos absolutos como Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, ele subverteu a cartilha clássica de Hollywood: descartou os rebatedores de luz. Ao deixar a luz branca, crua e implacável do sol nordestino “estourar” na película, ele traduziu a seca não apenas como um cenário, mas como um drama psicológico palpável. A famosa “Estética da Fome” ganhou textura, fazendo o público sentir fisicamente o calor e a agonia do sertão.

A Era de Ouro e as Últimas Obras

Com a produtora L.C. Barreto, fundada ao lado de sua inseparável esposa, Lucy Barreto, ele provou que o cinema brasileiro poderia ser genial e popular simultaneamente. Foi a obstinação da família que pavimentou o caminho para o fenômeno Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) e colocou o país no tapete vermelho do Oscar com O Quatrilho (1995) e O Que É Isso, Companheiro? (1997).

Mesmo chegando aos 90 anos, sua mente continuava inquieta. Nos últimos anos, Barretão focou seu olhar apurado para a denúncia social. Assinou a produção de projetos elogiados, como o documentário O Negro no Futebol Brasileiro (2018) e a impactante série documental da HBO, Escravidão – Século XXI (2021), dirigida por seu filho Bruno Barreto, onde expôs a dura realidade do trabalho escravo contemporâneo no Brasil. Seu último grande registro público ocorreu em fevereiro de 2024, ao gravar um histórico depoimento no MIS-RJ, cercado pela família.

O Luto de uma Indústria e o Eco das Palavras

A morte de Luiz Carlos Barreto gerou uma onda imediata de homenagens. Atores, diretores, políticos e instituições como a Ancine ressaltaram uma visão uníssona: a de que o cinema brasileiro moderno é órfão de seu maior pilar.

A genialidade de Barretão, no entanto, já havia sido atestada em vida por seus pares. Historicamente, o gênio Glauber Rocha definiu que a fotografia de Barreto foi a “tradução exata e luminosa da nossa realidade latino-americana”. Nelson Pereira dos Santos, mestre com quem dividiu as agruras do sertão, resumia bem seu perfil: “Ele enxergava soluções cinematográficas onde todos nós só víamos limites físicos e financeiros”.

Onde Assistir ao Legado

Para as novas e velhas gerações, a melhor forma de homenageá-lo é dar o “play” na história que ele ajudou a contar. Suas obras-primas estão acessíveis no streaming:

  • Vidas Secas (1963): Globoplay, Netflix e Telecine.

  • Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964): Globoplay.

  • Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976): Globoplay e Prime Video.

  • Bye Bye Brasil (1980): Globoplay, Prime Video, MUBI e Telecine.

  • Barretão, O Filme (Documentário): Prime Video.

O set de filmagens da vida real agora fica mais silencioso sem a voz rouca e articulada de Barretão. No entanto, as imagens que ele ajudou a conceber continuam vivas, rodando a 24 quadros por segundo, projetando um Brasil profundo para a eternidade. O homem partiu, mas sua lente jamais sairá de foco.

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