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Por Odair Dias Filho

Há exatos 129 anos, o Rio de Janeiro testemunhava o nascimento de uma instituição que se tornaria a maior guardiã do idioma e da literatura no país. Fundada em 1897, sob os moldes da Academia Francesa, a Academia Brasileira de Letras (ABL) surgiu em uma jovem República com uma missão monumental: consolidar a identidade cultural de uma nação. À frente desse projeto estava Machado de Assis, seu fundador e primeiro presidente. Mais de um século depois, a “Casa de Machado de Assis” prova que manter a tradição não significa fechar os olhos para o futuro.

A influência de Machado transcende as prateleiras das bibliotecas; ela moldou a forma como o Brasil entende a si mesmo. Na educação, sua obra continua sendo o pilar do letramento literário e do pensamento crítico nas escolas. Na cultura, a instituição que ele ajudou a erguer atua hoje como um farol ativo, distribuindo prêmios, promovendo palestras gratuitas e zelando pelo nosso idioma.

O Peso e o Preço da Imortalidade

Engana-se quem pensa que a ABL é um cabide de empregos governamentais. A instituição é privada e estritamente independente. Seu financiamento não sai dos cofres públicos, mas sim de investimentos e da renda gerada pelo aluguel das salas do edifício comercial erguido ao lado de sua sede histórica — o Petit Trianon, no centro do Rio de Janeiro.

Tornar-se um imortal, no entanto, exige paciência e liturgia. As 40 cadeiras da Academia são vitalícias. O processo eleitoral só tem início quando um membro falece. A partir da declaração da vacância, abre-se um prazo de dois meses onde candidatos — que precisam ser brasileiros natos e possuir obras de reconhecido mérito literário — devem apresentar sua autocandidatura por meio de carta formal. Setenta dias após a abertura da vaga, uma votação secreta define o novo imortal, que precisa de maioria absoluta para vencer.

Uma vez eleito, o acadêmico assume obrigações semanais. Espera-se a presença nos tradicionais “chás das terças” e nas sessões deliberativas das quintas-feiras, além da participação em comissões, como a de atualização ortográfica, e na administração da casa. Para isso, recebem um salário fixo de representação (historicamente em torno de R$ 3 mil) e jetons (cachês) por presença, podendo alcançar cerca de R$ 10 mil mensais, além de benefícios como plano de saúde.

Novos Imortais: A Cara do Brasil Contemporâneo

Nos últimos anos, a ABL passou por uma acelerada e necessária oxigenação, abraçando a diversidade e refletindo as múltiplas vozes que compõem o Brasil. A cultura popular, o jornalismo e os saberes originários ganharam espaço inédito.

Nomes consagrados das artes, como a atriz Fernanda Montenegro e o músico Gilberto Gil, expandiram o conceito de literatura da casa. Mais recentemente, figuras centrais do pensamento moderno passaram a compor o quadro, como o líder e filósofo indígena Ailton Krenak (cadeira 5), o premiado romancista Milton Hatoum (que assumiu a cadeira 6 no início de 2026), e a jornalista e economista Míriam Leitão (cadeira 7). Em um marco histórico, Ana Maria Gonçalves, autora do épico Um Defeito de Cor, foi eleita em 2025 para a cadeira 33, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar o posto em quase 130 anos.

O Cartório da Língua Portuguesa

O protagonismo da ABL na educação se dá fortemente através da Comissão de Lexicografia e Lexicologia, responsável pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). Diferente de um dicionário, que explica os significados das palavras, o VOLP dita a regra do jogo: como se escreve, qual a classe gramatical e onde vai o acento ou o hífen.

Com o auxílio do Observatório Lexical, a ABL não inventa nem julga o gosto das palavras novas; ela age como um “cartório”. Para uma palavra ser oficializada, ela precisa ter uso escrito comprovado, estabilidade no vocabulário popular e circular em pelo menos três gêneros textuais diferentes. É o povo quem cria a língua; a Academia apenas a certifica.

Portas Abertas para a História

Para quem deseja vivenciar essa herança de perto, a Casa de Machado de Assis mantém suas portas abertas. Todas as quartas-feiras, a sede no Petit Trianon oferece visitas guiadas gratuitas e imersivas. Em vez de guias tradicionais, atores profissionais conduzem o público — que precisa ter no mínimo 12 anos e fazer agendamento prévio online — pelos salões onde a história da literatura brasileira é decidida, incluindo o salão nobre e a sala de trabalho do próprio Machado.

Aos 129 anos, a Academia Brasileira de Letras demonstra que a imortalidade de sua obra não está no congelamento do passado, mas na capacidade de registrar, acolher e celebrar a evolução constante da cultura nacional.

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