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Por: Odair Dias Filho
SÃO PAULO — O mercado de aviação e turismo brasileiro vive um momento histórico e, ao mesmo tempo, desafiador. Entre os meses de janeiro e maio de 2026, os saguões dos principais aeroportos do país voltaram a registrar lotação máxima, consolidando a recuperação mais robusta do setor na década. Contudo, por trás dos painéis de embarque, há uma complexa engenharia financeira envolvendo o Governo Federal, companhias aéreas e um novo perfil de turista.
Os números oficiais da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) impressionam. Foram 42 milhões de passageiros em voos domésticos nos primeiros cinco meses do ano (crescimento de 6% ante 2025) e quase 13 milhões em rotas internacionais (salto de 10,3%). Somando as operações, a marca ultrapassa os 54 milhões de viajantes, com o Aeroporto de Guarulhos (SP) liderando o fluxo nacional.
O “Custo Brasil” e a Resposta de Brasília
Se a demanda é recorde, a operação no Brasil segue pressionada. No início do ano, as tarifas chegaram a apresentar uma queda de 14%, mas o cenário reverteu em abril, com um aumento médio de 9% nas passagens (tarifa média de R$ 669,41). O grande vilão, segundo o mercado, foi a disparada de mais de 40% no Querosene de Aviação (QAV).
“A demanda está fortemente aquecida, mas operar no Brasil continua sendo um desafio brutal. O preço do combustível e a volatilidade cambial corroem as margens de lucro, obrigando o repasse para a tarifa final. Sem previsibilidade, não há como baratear o assento de forma sustentável”, alerta o CEO de uma das maiores companhias aéreas com operação no país, sob reserva.
Para evitar que as passagens se tornassem um artigo de luxo e garantir o fluxo turístico, o Governo Federal precisou intervir. Uma força-tarefa liderada pelo Ministério de Portos e Aeroportos desenhou um pacote de socorro e universalização:
- Programa Voa Brasil: Lançamento de passagens fixadas a R$ 200 por trecho (sem taxas), voltadas para aposentados do INSS e estudantes do Prouni que não voaram nos últimos 12 meses.
- Socorro do FNAC: Liberação de até R$ 4 bilhões via BNDES (Fundo Nacional de Aviação Civil) para que as aéreas invistam em manutenção e renovação de frota.
- Desoneração do Combustível: A alíquota zero de PIS/Cofins sobre o QAV foi estabelecida para aliviar o caixa das empresas na hora de encher o tanque.
- Teto Voluntário: Um acordo com GOL, LATAM e Azul para garantir a oferta de milhões de assentos anuais com preços limitados a R$ 699, exigindo compra com 14 dias de antecedência.
“O Voa Brasil e o destravamento do FNAC foram respostas essenciais e imediatas. O transporte aéreo é vetor de desenvolvimento econômico; precisamos garantir que ele não volte a ser exclusivo para uma pequena elite”, pontua um representante do alto escalão do Ministério do Turismo.
O Caçador de Benefícios: O Novo Consumidor
Apesar das flutuações tarifárias, o brasileiro não parou de viajar, mas mudou radicalmente a forma como compra. A Serasa Experian mapeou, em junho de 2026, quase 18 milhões de brasileiros com um “perfil viajante” ativo, apontando que 91% da jornada de pesquisa e compra ocorre no ambiente digital.
A impulsividade deu lugar ao cálculo. Hoje, 8 em cada 10 viajantes utilizam ativamente o resgate de milhas, e 54% são considerados “caçadores de descontos”. Essa mudança de hábito exige adaptação do lado de quem vende.
“Os dados comprovam que temos um consumidor que avalia agressivamente o custo-benefício. Para as empresas do setor, a era da venda fácil acabou. O desafio agora é a personalização e o uso inteligente de dados para converter a pesquisa desse turista em venda real”, analisa Giovana Giroto, CMO da Serasa Experian.
O Mapa das Férias em 2026
Empresários do setor hoteleiro e agências de turismo comemoram os reflexos desse planejamento antecipado.
“O volume de reservas programadas com mais de três meses de antecedência cresceu 30% neste semestre. O turista estrangeiro ajuda, mas é o viajante nacional, muito bem planejado, que está garantindo a lotação de 90% dos nossos resorts”, celebra um representante da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH).
Nos radares dos buscadores, as tendências de destinos mostram um Brasil diversificado e conectado com o exterior:
- Litoral de Luxo e Ecoturismo: Fernando de Noronha (PE), Lençóis Maranhenses (MA) e Búzios (RJ) lideram as buscas por resorts e exclusividade. O Nordeste retém 41% da preferência nacional.
- Refúgios de Inverno: Gramado (RS) e Campos do Jordão (SP) consolidam o turismo familiar nas férias de meio de ano.
- Internacionais (América do Sul): Santiago, no Chile, desponta como a capital do inverno sul-americano, unindo custo-benefício e neve, ao lado de Buenos Aires e Bariloche.
- Rotas Clássicas e Parques: Orlando e Nova York (EUA) seguem imbatíveis para o turismo misto de compras e entretenimento, enquanto a Europa (Paris, Lisboa e Londres) concentra as buscas por turismo histórico e gastronômico.
O ano de 2026 desenha um cenário claro: entre os ajustes macroeconômicos e os subsídios estatais, o turismo aéreo brasileiro se sustenta pela força de um passageiro que, de celular na mão e calculadora na tela, recusa-se a ficar em terra firme.
