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As Duas Coroas do Brasil: O Desabafo do Quadradão e o Monarca de Plástico
“Cabra do cabelo grande/Cinturinha de pilão/Calça justa bem cintada/Costeleta bem fechada/Salto alto, fivelão/Cabra que usa pulseira no pescoço medalhão/Cabra com esse jeitinho/No sertão de meu padrinho/Cabra assim não tem vez não/Não tem vez não…”
Foi com a lâmina afiada dessa ironia poética que o sertão engoliu a Jovem Guarda. Na década de 1960, o Brasil via surgir o Iê-Iê-Iê, um movimento que varria o país como um trator de plástico.
No comando dessa máquina de moer tradições estava Roberto Carlos, o ídolo intocável da juventude de consumo, ditando as regras do que era aceitável ou descartável. Na cartilha rasa daqueles tempos, quem não usasse calça boca-de-sino, anéis extravagantes e não cantasse as dores de amores pueris era sumariamente atirado ao museu do esquecimento. O termo pejorativo da moda era um só: “quadrado”.
A arrogância daquela bolha alienada não poupava ninguém. Do alto de seu trono midiático e protegido pelo verniz de uma modernidade importada, a corte de “cabeludos” tratou a sanfona, a zabumba e a viola como relíquias de um Brasil atrasado e obsoleto. Mas tentar soterrar um filho do sertão com gírias de asfalto é assinar um atestado de ignorância. Luiz Gonzaga, forjado na poeira e na dureza da Caatinga, não era de baixar a cabeça para playboy de auditório.
Em vez de se lamentar, o Rei do Baião engatilhou sua sanfona e disparou o genial “Xote dos Cabeludos” (1967). Antes mesmo da melodia começar, ele já assumia a ofensa como uma armadura de ouro: “Atenção, senhores cabeludos! Aqui vai o desabafo de um quadradão…”. O deboche era cirúrgico. Gonzaga olhou para aquela rebeldia inofensiva, uma transgressão que não assustava generais, mas que se achava perigosa por deixar o cabelo crescer, e a reduziu ao seu tamanho real: uma farsa estética de “cinturinha de pilão”. E encerrou a disputa com um decreto cultural intransponível: “Num sertão de gente assim… cabeludo tem vez, não!”.
Mas essa rusga televisiva e musical era apenas a ponta do iceberg de um abismo muito mais profundo. Esse choque estético escancarava o verdadeiro fraturamento do país e a existência de “duas coroas” pesando sobre cabeças diametralmente opostas.
De um lado, o produto fabricado. O menino capixaba de classe média que encontrou na juventude transviada o seu modelo de negócios perfeito. Seria leviandade negar a importância estrutural de Roberto Carlos na fundação do rock nacional; ele trouxe a guitarra e embalou os primeiros passos do gênero. Mas era, em sua essência, uma rebeldia vazia, estéril. Uma transgressão sem propósito, milimetricamente calculada para vender brilhantina, calças justas e discos fonográficos.
A coroa de Roberto Carlos não veio das ruas, veio dos porões engravatados e das planilhas de lucro. Ele foi o soberano útil, o “queridinho” da indústria e o “cidadão de bem” da ditadura militar. Enquanto a verdadeira resistência cobrava um preço altíssimo, com artistas engajados sendo censurados, mortos, torturados nos porões do DOI-CODI ou despachados para o exílio, o “Rei da Juventude” pisava fundo no acelerador do seu calhambeque, enchendo as burras de dinheiro.
Sua majestade era a da alienação. Ele funcionou como a cortina de fumaça perfeita, o anestésico sonoro encomendado pelo Estado. Enquanto estudantes e operários sumiam, o país era entorpecido por refrões alienados sobre Jesus Cristo e paixões inofensivas. Um sujeito isolado em seu individualismo, cego à carnificina que o cercava, a ponto de receber, sem o menor pudor, medalhas e condecorações das mesmas mãos fardadas que assinavam atestados de óbito falsos de opositores políticos.
Do outro lado, o Rei legítimo. Luiz Gonzaga do Nascimento. Ele não desceu de um pedestal midiático; ele subiu da terra rachada. O rádio, aquele veículo visceral e verdadeiramente popular, foi quem pavimentou o seu reinado. Gonzagão não era um militante de esquerda, conhecia bem a disciplina das tropas e chegou a vestir a farda do Exército, mas a sua obra era o manifesto vivo da nossa identidade.
Filho do sanfoneiro Januário, Gonzaga conhecia a fome, a seca e o calo nas mãos. Ele não precisou de marqueteiros para entender o Brasil profundo. Ele cantou a tragédia da asa branca fugindo do sertão, o êxodo rasgado na carne, mas também os amores sublimes, a fartura das festas juninas e a resiliência de um povo que, mesmo esmagado pelo Estado, mantinha a própria dignidade.
Sua coroa foi moldada pelo suor do trabalhador, entregue pelo povo em cartas enviadas às emissoras de rádio. Ele pegou o Brasil que a elite urbana fingia não existir e o vestiu de realeza.
No fim do espetáculo, a história não perdoa as maquiagens malfeitas. Um trono serviu para camuflar o chumbo da repressão sob o peso do lucro estratosférico e da indiferença; o outro serviu para erguer a cultura, a dor e a alegria de uma nação inteira. Roberto Carlos pode ostentar os recordes inatingíveis de vendas e o selo de aprovação da elite que patrocinou a tortura.
Mas o monarca verdadeiro não usa manto de lantejoulas.
O Rei legítimo do Brasil transforma a poeira seca em poesia imortal.
A coroa do povo tem dono, e ela foi forjada no fole de uma sanfona.
