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Foi com a leveza e a inocência incontestável desse refrão, marca de seu maior sucesso, que Roberto Caldeira dos Santos, conhecido...
Créditos: Reprodução/Redes Sociais
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Por Odair Dias Filho

“Seu amor é um tijolinho / Que eu guardo com carinho / No meu coração…”

Foi com a leveza e a inocência incontestável desse refrão, marca de seu maior sucesso, que Roberto Caldeira dos Santos, conhecido nacionalmente como Bobby di Carlo, ajudou a pavimentar o caminho para o consumo musical da juventude no país. O cantor faleceu nesta última segunda-feira, 22 de junho de 2026, aos 80 anos, fechando um importante e melancólico capítulo das origens da música pop nacional.

A trajetória de Bobby confunde-se com o próprio nascimento e consolidação do rock no Brasil. Antes mesmo de a Jovem Guarda dominar as tardes de domingo na televisão e se tornar o maior fenômeno midiático da época, ele já desbravava um cenário ainda resistente ao ritmo estrangeiro. O saudoso músico e pesquisador Kid Vinil frequentemente o elencava como um dos grandes nomes na construção do rock brasileiro. Kid fazia questão de lembrar ao público, em seus livros e programas, que a nossa cena roqueira não nasceu do nada nos anos 1980; ela exigia reverência absoluta a desbravadores como Bobby, Celly Campello e Eduardo Araújo, pioneiros que importaram o iê-iê-iê e o tornaram acessível com carisma e versões em português.

A importância de Bobby nos bastidores foi tão grande quanto sob os holofotes. Foi no improviso dos primeiros acordes elétricos nas garagens de São Paulo que ele, ao lado do guitarrista Joe Primo, fundou em 1961 o conjunto The Vampires. Essa união seminal duraria pouco com esse nome de batismo, mas logo ganharia novos integrantes para se transformar na lendária banda The Jet Black’s, um dos mais cultuados e influentes grupos de rock instrumental da história do país.

Apesar do estrondo nas paradas de sucesso, a postura de Bobby di Carlo e do movimento que o abraçou foi alvo de embates ferozes. Enquanto o Brasil mergulhava na escuridão e na truculência da ditadura militar — enfrentando anos de censura implacável, prisões arbitrárias, assassinatos e torturas —, a Jovem Guarda optou por não se envolver. Bobby e seus contemporâneos escolheram fazer da música um veículo de puro entretenimento, cantando sobre carros velozes, festas de arromba e desilusões amorosas adolescentes.

Para os artistas da chamada canção de protesto e para a intelectualidade universitária da época, essa escolha rendeu à Jovem Guarda a dura pecha de “alienada”, acusada de servir como uma distração conveniente e inofensiva para os horrores promovidos pelo regime ditatorial.
No entanto, se politicamente o movimento escolheu o silêncio, a sua influência estética foi uma verdadeira revolução que moldou, de forma definitiva, a evolução do rock brasileiro. A Jovem Guarda quebrou os padrões conservadores e importou uma atitude visual que desafiava a rigidez e a formalidade da época. A adoção de guitarras elétricas, roupas supercoloridas, minissaias, jaquetas, cortes de cabelo à la Beatles e o uso constante de gírias nas letras criaram uma identidade cultural própria. Essa explosão estética instituiu a juventude, pela primeira vez, como a grande protagonista do mercado, deixando uma infraestrutura de consumo de moda e comportamento que seria herdada por todas as gerações posteriores do nosso rock.

Após o declínio da fase áurea do movimento nos anos 1970, Bobby di Carlo fez mais uma escolha contundente: a absoluta discrição. Avesso às polêmicas vazias, aos excessos e à necessidade de se manter na mídia a qualquer custo, o cantor simplesmente optou por se retirar gradativamente dos holofotes. Ele preferiu levar uma vida pacata, distante das imposições vorazes e descartáveis da indústria fonográfica.

Bobby di Carlo pode ter vivido suas últimas décadas longe das câmeras e do frenesi televisivo, mas a fundação que ele ajudou a erguer continua de pé. Com sua voz marcante, sua simpatia e seu pioneirismo de garagem, ele sem dúvida deixou, para sempre, o seu tijolinho na construção da cultura pop brasileira.

 

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