Greenspan foi o chefe do banco central americano mais longevo da história moderna, conduzindo a política monetária dos EUA sob quatro presidentes — de Ronald Reagan a George W. Bush.
Parkinson levou um dos economistas mais influentes do século XX
Greenspan morreu em casa na manhã desta segunda-feira (22). “Alan faleceu em nossa casa esta manhã, aos 100 anos de idade, devido a complicações da doença de Parkinson”, disse Andrea Mitchell em comunicado. Os dois eram casados havia 29 anos e se conheceram em 1984.
Mitchell descreveu o marido como “um gigante que ajudou a moldar a economia dos EUA por décadas, sob presidentes de ambos os partidos, mas sempre honesto ao reconhecer seus erros”. Em tom mais pessoal, lembrou da paixão de Greenspan por beisebol, tênis, golfe e jazz, e afirmou que “ser sua companheira de vida foi a maior alegria da minha vida”.
De Washington Heights ao comando do Fed: uma trajetória de seis décadas
Nascido em 6 de março de 1926, no bairro de Washington Heights, em Nova York, Greenspan se formou em economia pela Universidade de Nova York, onde fez graduação e mestrado. Começou a carreira como consultor no setor privado e, na década de 1950, aproximou-se intelectualmente da escritora Ayn Rand — cuja defesa do livre mercado influenciou parte de sua visão econômica.
Em 1968, participou da campanha presidencial de Richard Nixon. Anos depois, integrou o governo de Gerald Ford como chefe do Conselho de Assessores Econômicos, em um período marcado por inflação elevada nos EUA.
Em 1987, o presidente Ronald Reagan o escolheu para presidir o Federal Reserve — o banco central americano, responsável por definir as taxas de juros e zelar pela estabilidade do sistema financeiro do país.
Quase 19 anos no Fed: da “segunda-feira negra” ao estouro da bolha tecnológica
Logo no início do mandato, em outubro de 1987, Greenspan enfrentou a maior queda percentual de um único dia na história da Bolsa de Nova York — episódio que ficou conhecido como “segunda-feira negra”. Sua resposta rápida para evitar o contágio da crise consolidou sua reputação como gestor de crises.
Ao longo dos anos seguintes, ele conduziu a política monetária apostando que o aumento de produtividade da economia americana — impulsionado pela expansão da internet e da globalização nos anos 1990 — ajudaria a conter a inflação sem a necessidade de aperto forte nos juros. Essa postura sustentou um longo ciclo de crescimento e lhe rendeu reconhecimento público amplo.
Greenspan permaneceu no cargo de 1987 a 2006, atravessando os governos de Reagan, George H. W. Bush, Bill Clinton e George W. Bush. Nesse período, também administrou os impactos econômicos dos ataques de 11 de setembro de 2001 e o estouro da bolha das empresas de tecnologia no início dos anos 2000.
Crise de 2008 expôs os limites de sua visão sobre autorregulação do mercado
Depois de deixar o Fed, em 2006, a gestão de Greenspan passou a ser alvo de críticas crescentes. A crise financeira de 2007-2008 — a maior desde a Grande Depressão — lançou dúvidas sobre sua defesa de menos regulação para o sistema financeiro e sua tolerância a investimentos de alto risco.
Investigações e estudos apontaram que essa postura pode ter contribuído para a formação da bolha imobiliária que resultou no colapso do sistema financeiro americano. O próprio Greenspan reconheceu publicamente ter encontrado “uma falha” em sua visão de mundo sobre a capacidade do mercado de se autorregular.
Mesmo com as críticas, seguiu ativo como consultor e escritor por mais de uma década após deixar o cargo.
Última aparição pública: carta em defesa da independência do Fed
Nos últimos anos, em meio a pressões políticas sobre o banco central americano, Greenspan assinou uma carta coletiva em defesa da autonomia do Fed. O documento pedia à Justiça que mantivesse a diretora Lisa Cook no cargo enquanto a legalidade de uma eventual destituição era analisada.
Entre os signatários estavam também os ex-presidentes do Fed Janet Yellen e Ben Bernanke, além dos ex-secretários do Tesouro Henry Paulson, Timothy Geithner e Lawrence Summers. O grupo alertou que interferências políticas sobre o banco central representam risco à credibilidade da instituição e à estabilidade econômica do país.
O Federal Reserve foi fundado em 1913 justamente para reduzir a influência política sobre as decisões de juros e câmbio nos EUA — princípio que Greenspan defendeu até os últimos anos de vida.

