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O advogado João Ivaniel de França Abreu, de Santos, no litoral de São Paulo, soube que estava sendo usado como instrumento de fraude no dia 25 de maio, quando clientes começaram a encaminhar para ele mensagens suspeitas recebidas no WhatsApp. Os criminosos usavam uma foto dele, apresentavam informações reais dos processos e prometiam a liberação de indenizações na Justiça — tudo acompanhado de documentos falsos que simulavam decisões judiciais e alvarás.
“A fotografia que está na mensagem não é a minha do WhatsApp, dizendo que haviam sido julgadas procedentes ações e que tinham um valor a receber”, relatou o advogado.
Único entre oito: o caminhoneiro que acreditou
Oito clientes do escritório foram abordados pelos criminosos. Sete desconfiaram e contataram França Abreu antes de tomar qualquer atitude. O oitavo — um caminhoneiro — acreditou estar falando com o próprio advogado, forneceu informações durante a conversa e teve R$ 45 mil retirados da conta.
“É um homem pobre e trabalhador que lamentavelmente foi vítima desse golpe sujo mais uma vez ocorrido, usando o nome de um advogado”, disse França Abreu. Ele contou que adota como prática enviar mensagens de áudio aos clientes e pedir que compareçam ao escritório quando há resultados de processos — justamente para que a voz sirva como identificação.
Filho do advogado também foi alvo de esquema semelhante
Bruno Ivaniel Pacheco, filho de França Abreu e também advogado, relatou ter passado por situação parecida cerca de um ano e meio antes. Na ocasião, três clientes foram abordados por golpistas que se passavam por ele. O mecanismo era o mesmo: alegar que uma indenização estava disponível e exigir um depósito bancário prévio para liberá-la.
Robôs coletam dados públicos dos tribunais e repassam a criminosos
Eduardo Ferrari, coordenador da força-tarefa para enfrentamento do golpe do falso advogado da OAB-SP, explica como os criminosos obtêm as informações que tornam o golpe convincente.
“O que a gente observa com maior intensidade é que eles conseguem esses elementos através de robôs digitais, eletrônicos, que baixam esses dados dos processos junto aos tribunais. No estado de São Paulo, a maior recorrência que temos dos registros nos nossos bancos de dados é o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo”, disse Ferrari.
Após a coleta automatizada, os dados são vendidos para outros grupos. “O golpista vai lá, busca essas informações e depois vende essas informações para outras camadas de criminosos. Essa camada, que fica em contato com os clientes, é a camada efetivamente da chamada do telefone, como se fosse o telemarketing do crime”, completou.
Ferrari observa que, embora as vítimas mais frequentes sejam pessoas com menor familiaridade com tecnologia, há registros de pessoas jovens e com maior escolaridade que também caíram no esquema.
Três sinais que identificam o golpe, segundo a OAB-SP
A OAB-SP, por meio de Ferrari, lista três elementos que diferenciam o contato legítimo de um advogado da abordagem criminosa:
- Número de contato: o advogado usa o próprio número — não um número desconhecido ou de outra região.
- Nenhuma cobrança prévia: advogado não pede depósito ou transferência para “liberar” valores.
- Dinheiro vai para conta própria do advogado: pagamentos legítimos nunca são direcionados à conta de terceiros.
“Desconfiando e aplicando esses três elementos, a pessoa não vai cair no golpe”, afirmou Ferrari.
Fenômeno se expande em São Paulo
O golpe do falso advogado tem crescido no estado de São Paulo. Segundo a OAB-SP, a entidade já contabilizou quase 6 mil denúncias relacionadas a esse tipo de crime. A força-tarefa coordenada por Ferrari atua no monitoramento dos casos e na orientação à população.
O próximo passo, para quem já foi vítima, é registrar boletim de ocorrência e comunicar a OAB da seccional correspondente. Para quem receber mensagens suspeitas, a orientação é não responder, não transferir valores e confirmar qualquer contato diretamente com o escritório do advogado pelo canal oficial já conhecido.
