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Odair Dias Filho Mestre em Serviço Social e Políticas Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Possui especializações em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Direito Internacional pelo Instituto Mineiro de Educação Superior (IMES), Direitos Humanos e Psicologia da Educação pela Faculdade Focus, além de graduações em Serviço Social (UNAERP), Sociologia (FIC) e História (FIAR). Docente e pesquisador na Universidade Santa Cecília (UNISANTA) ena Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (ESAMC). Membro dos Grupos de Pesquisa “Violência de Estado, Direitos Humanos e Educação Popular” (coordenado pela Profª Drª Raiane P. S. Assumpção) e “GEPEXDHAA -Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Sociedade Punitiva, Justiça Criminal e Direitos Humanos” (coordenado pela Profª Drª Andrea Almeida Torres), ambos da UNIFESP -Campus Santos; e integrante do “GEMTSSS -Grupo de Estudos e Pesquisas: Mundo do Trabalho, Saúde e Serviço Social” da UNESP -Franca. Membro do Comitê Editorial da Revista Sankofa (Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana) da Universidade de São Paulo (USP). Laureado com o Prêmio Zumbi dos Palmares em reconhecimento às contribuições intelectuais e de pesquisa no campo das relações étnico-raciais e justiça social.
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Crônica sobre a Paranoia Imigratória, a Invertebrada FIFA e o Refúgio de Chuteiras no México

O árbitro somali Omar Artan passou anos a estudar as 17 regras do futebol. Tolo. Deveria ter estudado a Secção 212(f) da Lei de Imigração e Nacionalidade dos Estados Unidos. Descobriria, antes de despachar as malas em Istambul, que a física de um fora de jogo é infinitamente mais simples do que a metafísica da “ameaça presumida” emanada da ala oeste da Casa Branca. Ao desembarcar em Miami, Artan não encontrou árbitros assistentes, o quarto árbitro ou o caloroso comité de boas-vindas da FIFA; encontrou a Proclamação Presidencial 10998, personificada num agente de fronteira cuja capacidade de interpretação geopolítica empata tecnicamente com o nível de empatia de uma catraca eletrónica.

Dizem que a Copa do Mundo de 2026, a primeira organizada por três nações simultaneamente, deveria ser a celebração definitiva da união dos povos. Uma linda utopia multipolar, colorida e anti-xenófoba, minuciosamente desenhada nos relatórios de sustentabilidade da FIFA. No entanto, no primeiro aeroporto à direita, rebatizámos o torneio. Sejam bem-vindos à “Copa Trump”, onde a realidade se impõe com o charme de um tanque de guerra. O governo de Donald Trump decidiu que o maior espetáculo da Terra precisa de uma arbitragem própria, baseada no princípio basilar do seu mandato: o mundo divide-se entre os que têm o direito de aplaudir o Império e os que têm a obrigação de ser suspeitos.

A argumentação oficial da Casa Branca é de uma sofisticação de taberna. Barrar atletas, equipas técnicas e árbitros de “países hostis” baseia-se na tese de que tais nações possuem “inadequações crónicas nos seus sistemas de triagem”. Traduzindo o juridiquês imperial para o vernáculo das ruas: “Não confiamos no vosso passaporte porque destruímos o vosso país e agora temos pavor dos vossos fantasmas”. É a perfeita simetria da política externa de Washington. Primeiro, apoiam-se sanções sufocantes, financiam-se conflitos por procuração e desenham-se novas fronteiras com drones; depois, na alfândega de Chicago, exige-se que a vítima do bombardeio de ontem apresente um atestado de antecedentes criminais limpo, assinado por um governo que o próprio Império desestabilizou.

O avançado iraquiano Aymen Hussein passou sete horas a ser interrogado no Aeroporto O’Hare. Ao que parece, nesta “Copa Trump”, o presidente deve estar a confundir um campo de futebol com um campo de concentração. Diante desta vertigem autoritária, a administração americana encontrou um meio-termo nefasto: transformar o desembarque num calvário temperado com a tensão e a tortura psicológica dos interrogatórios infindáveis, usando o medo institucionalizado como arma de intimidação de Estado. O fotógrafo da equipa iraquiana amargou dez horas de detenção, teve o seu telemóvel devassado e acabou deportado. Presume-se que o olhar clínico de um repórter fotográfico sobre uma bola de couro seja uma arma de destruição maciça em potencial. É o imperialismo na sua fase estética: o Império não apenas faz a guerra; ele quer o monopólio da imagem.

Mas é ao olharmos para o Sul, cruzando o infame Rio Grande, que a ironia desta “Copa Trump” atinge proporções homéricas.

Enquanto os Estados Unidos transformam as suas pistas de aterragem em extensões de Guantánamo, o México desponta como o verdadeiro anfitrião acolhedor da América do Norte. Veja-se o caso da seleção do Irão. Proibida de circular em solo americano porque os seus auxiliares tiveram vistos negados por “risco à segurança nacional”, a delegação encontrou asilo desportivo em Tijuana. O México concedeu vistos, abriu as portas dos seus centros de estágio e tratou os atletas não como agentes infiltrados, mas como desportistas. O país que Trump passou uma década a tentar isolar com um muro é, hoje, o refúgio moral que impede o torneio de entrar em colapso.

Enquanto isso, em Zurique, a Federação Internacional de Futebol Association (FIFA) assiste a tudo com a espinha dorsal de um molusco. A resposta da entidade é uma obra-prima da cobardia burocrática: “O controlo de fronteiras é uma questão de soberania nacional”.

Ninguém em sã consciência, nem o mais pragmático dos analistas de Relações Internacionais, ignora que o controlo de fronteiras é o Santo Graal da soberania de um Estado. Sabemos disso. A lei sabe disso. Ninguém exige que a FIFA declare guerra ao Pentágono, confisque as chaves da Casa Branca ou reescreva a Constituição Americana. Contudo, ao esconder-se passivamente atrás dessa desculpa jurídica, a FIFA abandona o seu dever de se posicionar publicamente com base nos princípios que moldam o próprio espírito do esporte.

A verdadeira essência do futebol não se resume a um evento logístico; é construída sobre a promessa fundamental da união, da superação de fronteiras e do congraçamento multipolar — valores que a própria entidade embala e vende aos seus patrocinadores por milhares de milhões de dólares. A FIFA tinha a obrigação moral e estatutária de erguer a voz nesta “Copa Trump” e dizer, em alto e bom som, que a dignidade humana não pode parar na catraca da imigração e que o ethos desportivo é incompatível com xenofobia mascarada de burocracia. Mas preferiu o silêncio complacente. Ah, a soberania! Essa velha senhora que a FIFA ignora olimpicamente quando exige isenções fiscais bilionárias dos países sedes, mas que vira um dogma sagrado quando é conveniente não desagradar ao xerife do Norte.

O espetáculo grotesco de Trump viola o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e cospe na Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (CERD) através da mais pura profilaxia racial. Mas o que são tratados assinados em Genebra diante de uma ordem executiva assinada com uma caneta Sharpie? No tribunal do trumpismo, o direito internacional é apenas uma sugestão politicamente correta aplicável estritamente aos países subdesenvolvidos.

O relvado deveria ser o território livre da bola, o espaço sagrado da solidariedade internacional onde o passaporte não dita o resultado. Mas, sob as ordens de Trump e com a anuência silenciosa da FIFA, a parcela americana deste torneio tornou-se um exercício humilhante de submissão. Trump conseguiu espelhar a sua política externa no desporto: um evento onde o Sul Global é revistado até aos ossos, a diplomacia é terceirizada para o México e o maior adversário de qualquer seleção não veste a camisola da equipa oposta, mas sim o distintivo da Alfândega e Proteção de Fronteiras. A bola ainda rola, mas na “Copa Trump”, ela faz o seu trajeto em liberdade condicional.

 

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