Personagem de IA viraliza com críticas políticas e levanta debate sobre influência nas redes
Reprodução do Instagram
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Política – Um perfil criado com inteligência artificial tem chamado atenção nas redes sociais ao alcançar níveis de engajamento comparáveis aos de figuras públicas e parlamentares. A personagem, conhecida como “Dona Maria”, viralizou com vídeos críticos ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministros do Supremo Tribunal Federal, reacendendo discussões sobre o impacto da tecnologia no debate político.

Avatar digital ganha milhões de visualizações

A personagem é uma mulher idosa fictícia, criada com ferramentas de inteligência artificial, que aparece em vídeos com discursos carregados de indignação e linguagem direta. Em uma das publicações mais populares, o conteúdo ultrapassou 8,8 milhões de visualizações e acumulou milhares de comentários.

O engajamento não é pontual. Levantamentos indicam que o perfil mantém média de interações semelhante à de políticos conhecidos, como:

  • Damares Alves
  • Lindbergh Farias
  • Ronaldo Caiado

O alcance chama atenção por não depender de uma figura real, mas de um personagem totalmente digital.

Como os vídeos são produzidos

Segundo o criador da página, um motorista de aplicativo do Rio de Janeiro, cada vídeo custa cerca de R$ 20 para ser produzido. Ele utiliza ferramentas como o Gemini e outras plataformas de geração de vídeo para criar o conteúdo.

A estratégia, segundo ele, envolve identificar temas com alto potencial de engajamento — especialmente aqueles que geram indignação.

“Assuntos que geram revolta social, o algoritmo entrega”, afirmou o criador em entrevista.

Além da produção, o responsável também monetiza o conteúdo e afirma receber pedidos de terceiros interessados em vídeos semelhantes.

Engajamento impulsionado por emoção

Especialistas apontam que o sucesso do perfil está ligado ao tipo de linguagem utilizada. O conteúdo aposta em emoções fortes, como revolta e indignação, que tendem a gerar mais compartilhamentos e comentários.

Na prática, isso cria um ciclo: quanto mais reação o conteúdo provoca, maior é sua distribuição nas plataformas.

Esse tipo de estratégia não é exclusivo da política, mas ganha peso adicional em contextos eleitorais ou de polarização, onde opiniões tendem a ser mais intensas.

Riscos de desinformação e confusão

Apesar do sucesso, o fenômeno levanta preocupações. Um dos principais riscos é a dificuldade de distinguir conteúdo fictício de opiniões reais, especialmente para parte do público.

O próprio criador admite já ter publicado informações incorretas, posteriormente apagadas.

Especialistas destacam que, mesmo quando o público sabe que se trata de um avatar, a repetição de discursos pode influenciar percepções e reforçar narrativas.

Regras e desafios para a Justiça Eleitoral

O avanço desse tipo de conteúdo ocorre em um momento em que o Tribunal Superior Eleitoral tenta atualizar regras para o uso de inteligência artificial em campanhas.

A resolução mais recente prevê:

  • obrigatoriedade de identificação de conteúdo gerado por IA
  • proibição de deepfakes (simulação de pessoas reais)
  • responsabilização de candidatos que compartilhem conteúdo irregular

No entanto, especialistas apontam que personagens fictícios, como “Dona Maria”, operam em uma “zona cinzenta”, já que não se passam por pessoas reais.

Tecnologia acessível muda o jogo político

Outro ponto relevante é a democratização da tecnologia. Ferramentas que antes exigiam alto investimento agora estão disponíveis para qualquer pessoa com acesso à internet.

Isso pode impactar diretamente campanhas políticas, especialmente candidaturas com menos recursos, que passam a ter novas formas de comunicação.

Por outro lado, o aumento no volume de conteúdo dificulta a fiscalização e amplia os desafios para autoridades e plataformas digitais.

Um novo cenário para o debate público

O caso da personagem de IA evidencia uma transformação em curso: a comunicação política já não depende apenas de líderes, partidos ou veículos tradicionais.

Avatares digitais, criados por cidadãos comuns, passam a disputar atenção e influenciar conversas em larga escala.

Diante disso, a principal questão que surge é: como equilibrar liberdade de expressão, inovação tecnológica e responsabilidade no ambiente digital?

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