O desfile da Acadêmicos de Niterói abriu o Grupo Especial na Marquês de Sapucaí com uma proposta clara: homenagear a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva.
O enredo, intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, percorreu momentos marcantes da vida do presidente: a infância no Nordeste, a migração para São Paulo, o sindicalismo no ABC paulista, a fundação do Partido dos Trabalhadores, os mandatos no Planalto, a prisão e o retorno ao poder.
A narrativa oficial era biográfica e exaltava a trajetória política de Lula. No entanto, o que dominou o debate após o desfile foi outro personagem.
O “Bozo” na avenida
Embora Jair Bolsonaro não esteja citado na letra do samba-enredo, sua representação apareceu com destaque nas alegorias e na comissão de frente. Caracterizado como “Bozo” — apelido usado por críticos — o ex-presidente foi retratado de forma caricata em cenas que representavam a ascensão ao poder.
A comissão de frente encenou a crise política recente: o impeachment de Dilma Rousseff, a posse do vice Michel Temer, a ascensão de Bolsonaro, a prisão de Lula e o retorno ao Planalto.
Chamou atenção o fato de Temer aparecer de forma convencional, já que em 2018 ele foi retratado como seu famoso apelido de “Vampiro”, enquanto Bolsonaro apareceu sob a estética de palhaço. Para críticos, houve direcionamento claro na caricatura. Para defensores, trata-se da tradição do Carnaval como espaço de crítica e sátira política.
O resultado foi que, mesmo em um desfile oficialmente dedicado a Lula, a figura do “Bozo” acabou se tornando um dos assuntos mais comentados da noite.
Janja e Lula na Sapucaí
A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, chegou a ser cogitada para desfilar, mas não participou da apresentação na avenida. Lula também não desfilou pela escola. O presidente esteve no Rio de Janeiro durante o período do Carnaval, mas não integrou o cortejo da agremiação na Sapucaí.
Nos bastidores, a orientação da Advocacia-Geral da União para que ministros evitassem participação direta no desfile reforçou o cuidado institucional diante da possibilidade de interpretações eleitorais.
Ministra permitiu
Antes mesmo de entrar na avenida, o desfile já enfrentava tensão fora da Sapucaí. Nos bastidores, houve questionamentos jurídicos e políticos sobre a homenagem a Luiz Inácio Lula da Silva, principalmente pelo fato de ele estar no exercício do mandato.
Discussões chegaram ao Judiciário e envolveram debates sobre possível promoção pessoal em evento cultural de grande alcance. A ministra Cármen Lúcia foi uma das autoridades citadas no contexto das decisões que permitiram a realização do desfile dentro dos parâmetros legais, afastando tentativas de impedir ou restringir a apresentação.
Nos bastidores políticos, a avaliação era de que qualquer impedimento poderia gerar efeito contrário e ampliar ainda mais a repercussão do caso. No fim, a escola desfilou, a homenagem foi para a avenida — e a polêmica ganhou dimensão nacional.
