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Os encantos secretos do namoro

 

Essa crônica tem quase 44 anos de atraso. No começo de 82, já trabalhando como engenheiro, eu começava o curso de Jornalismo na Universidade Católica de Santos. Já na primeira semana, ganho de um amigo da faculdade, o hoje jornalista José Luiz Araújo, o Zé Gatão, o livro de crônicas Alguém Que Já Não Fui, de Artur da Távola.

Eu já gostava muito de crônicas: Carlos Drummond, Nelson Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta, Flávio Rangel… Não conhecia Artur da Távola e fiquei muito impactado com o estilo leve, despojado, diferente, informal, meio filosófico, de frases curtas, de definições bem-humoradas e com palavras do cotidiano. 

A crônica que me causou impressão mais forte foi Ter Ou Não Ter Namorado. Eu tinha namorada. E sentia tudo aquilo. Durante a leitura, fiz um pacto/compromisso comigo mesmo de escrever uma crônica com esse tema e tão gostosa de ler quanto a dele. Mas me senti inseguro. Parecia missão impossível.

Artur da Távola achava frases que estavam muito longe do meu alcance criativo:

“Namorado de verdade é muito raro, exige adivinhação, nuvem, brisa, filosofia, pele…”

“Não tem namorado quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa.”

“…quem não sente ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou de metrô, bonde, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.”

“…quem não tem música secreta, quem não faz dedicatória em livro, quem tem medo de ser afetivo.”

A crônica é genial.

Mais de 40 anos depois, vou arriscar. Nesse período descobri que Artur da Távola deve ter bebido na fonte de Paulo Mendes Campos. A crônica Ser Brotinho, publicada 20 anos antes de Alguém Que Já Não Fui, tem esse mesmo estilo.

Depois dos dois, houve a série de cartoons e cartões Amar É, da neozelandesa  Kim Casali, com um bonequinho e uma bonequinha pelados, sucesso dos anos 80 e 90:

“Amar é não implicar com a roupa dele.”

“Não esquecer de elogiar o cabelo dela.”

“Encontrar tempo um para o outro.”

“Inventar uma receita para ser feliz no amor.”

Artur da Távola escreve que “paquera, gabiru, flerte, caso, amante, transa, envolvimento, paixão é tudo fácil. Namorado, não. É a mais difícil das conquistas”.

Assino embaixo e acrescento, pelas mudanças de comportamento desses 40 anos, “ficante” e “peguete”. 

O namoro é mesmo diferente disso tudo. Tem leveza. Tem arrepio em todos os beijos. Tem descobertas que a gente fica lembrando antes de dormir. Tem verdade, tem gestos de carinho absolutamente espontâneo, tem uma coisa de olhar para o futuro com otimismo por mais louco que esteja o mundo, por mais difícil que estejam a vida e as circunstâncias. 

As gerações atuais recuperaram o pedido de namoro que os jovens das gerações dos anos 60, 70, 80 e 90 tinham abolido.

Aprendi com a minha filha Luluza que namoro agora voltou oficialmente a exigir o pedido.

E passou a ter uma vontade irresistível de pegar a mão do outro depois de subir um andar na escadaria do shopping. De olhar junto uma vitrine toda lotada de caixas de perfumes para descobrir o que o outro gosta: Chloé, J´adore…

Namorar é compartilhar com o outro o restaurante preferido, Amendoeiro, e o açaí adoçado com caldo de cana, Oakberry.

É controlar a ansiedade e esperar a ocasião adequada para apresentar o(a) namorado(a) para os amigos com quem a gente rema junto na canoa havaiana no sábado.

É segurar o guarda-chuva para o outro(a) não se molhar enquanto a gente fica olhando junto para uma noite feia encostado na mureta da praia.

A conclusão da crônica do Artur da Távola é irretocável:

Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu o pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que tem sentido.

ENLOU-CRESÇA.

Nada, absolutamente nada a acrescentar. E pacto/compromisso finalmente, 44 anos depois, CUMPRIDO !!!

 

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