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Alguma coisa está fora da nova ordem mundial
“A grande dor das cousas que passaram” é um verso de um dos grandes da poesia mundial, o português Luís de Camões, que viveu no século 16. Rubem Braga, o príncipe brasileiro da crônica, considera esse, todo construído com palavras simples, um dos grandes versos de Camões. E Carlos Drummond, lá do topo da poesia em língua portuguesa, construiu um poema que tem esse verso como título, resguardando inclusive a forma arcaica “cousas”.
Lembro desse verso quando penso na nova ordem geopolítica mundial que está sendo instalada como reação aos pensamentos, palavras e obras do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Será que a ordem que vai sendo substituída vai deixar a grande dor da saudade?
Será, repito, que vamos sentir, nova ordem instalada, “a grande dor do passamento da antiga – precária – que vigorou de 1945 a 2025”? Um arranjo que passava pela arbitragem esgarçada da ONU e pelo respeito relativo à soberania das nações?
Trump idealizou um resort gigantesco em Gaza, quer porque quer a Groenlândia, ordenou a destruição dos laboratórios subterrâneos de enriquecimento de urânio no Irã, mandou capturar e prender o ditador venezuelano Nicolás Maduro, cogitou a anexação do Canadá, quer de volta o canal do Panamá, botou de cabeça pra baixo o comércio internacional com tarifaços…
Trump causa dentro e fora do país dele todos os dias.
Desde Isaac Newton, sabe-se que toda ação gera uma reação equivalente e de sentido oposto. E as reações às ações de Trump começam a pipocar dentro e fora dos Estados Unidos.
Nessa nova ordem, 4 polos de poder econômico e bélico despontam: Estados Unidos, China, União Europeia e Rússia.
Um exercício interessante consiste em analisar os potenciais de cada um.
Os Estados Unidos, cada vez mais isolados, têm população em torno de 340 milhões, PIB batendo na casa de US$ 29 trilhões, o maior arsenal atômico e as forças armadas mais treinadas e equipadas em tecnologia.
A China tem população 4 vezes maior: 1,4 bilhão. O PIB já ultrapassou a marca dos US$ 20 trilhões e o poderio armamentista / tecnológico tem evoluído em saltos cada vez maiores.
A Rússia, temida pelo arsenal nuclear que rivaliza com o dos Estados Unidos, tem população muito menor: 150 milhões, e PIB muito abaixo dos outros gigantes: US$ 2 trilhões. O poderio bélico, desgastado: o país dá mostras de fragilidade e vulnerabilidade insuspeitadas no conflito com a Ucrânia.
E por fim, a surpresa: a União Europeia. População maior que a dos Estados Unidos: 450 milhões mesmo sem contar com os 70 milhões do Reino Unido. PIB de US$ 20 trilhões também sem os US$ 3 trilhões dos britânicos. Tem armas nucleares. E países-membros, como Alemanha e França, aprovaram orçamentos para 2026 com grandes investimentos em treinamento de soldados e produção de armas.
O Japão, 130 milhões de habitantes e PIB de US$ 5 trilhões também está investindo em armamentos. Se alinhado com a UE e o Reino Unido, esse bloco passa a ter PIB equivalente ao dos Estados Unidos e capacidade, num futuro próximo, de defender a Groenlândia.
Índia (população maior que a da China), países árabes (ricos em petróleo), África paupérrima e América Latina por enquanto são coadjuvantes.
Os efeitos da nova ordem já começaram e não se limitam à corrida armamentista: depois de 25 anos de tapas, beijos e embaços, o acordo comercial União Europeia – Mercosul está saindo do forno.
Como fica o Brasil neste novo cenário? Esse é exatamente o assunto do próximo texto neste espaço.
