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alunos deixam de ler
Reprodução arquivo pessoal
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Educação – O hábito de leitura entre crianças e adolescentes brasileiros enfrenta um cenário de queda. Dados da 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, mostram que o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos.

Pela primeira vez desde o início da série histórica, em 2007, o número de brasileiros que não são considerados leitores ultrapassou o de leitores. Segundo a pesquisa, 53% da população não leu livros no período considerado, enquanto 47% foram classificados como leitores.

A redução também aparece entre estudantes. Entre alunos do 1º ao 5º ano, a proporção de leitores caiu de 49% em 2019 para 40%. Já entre estudantes do 6º ao 9º ano, o índice passou de 54% para 49%.

Os números levantam uma questão importante para as escolas: se o afastamento dos livros acontece justamente durante os anos de escolarização, o que pode ser feito para recuperar o interesse pela leitura?

Dificuldade de compreensão pode afastar estudantes

Uma das respostas pode estar na própria relação dos alunos com os textos.

De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 36% das pessoas que não são consideradas leitoras afirmam que não leem porque não compreendem o que leem.

Isso significa que, em parte dos casos, o aparente desinteresse pode estar relacionado a uma dificuldade de compreensão. Para um estudante que encontra obstáculos para identificar informações, entender a ideia principal de um texto ou interpretar uma pergunta, a leitura pode deixar de ser uma atividade prazerosa e passar a representar uma fonte de frustração.

A dificuldade também pode aparecer em outras disciplinas. Um aluno que não compreende adequadamente um enunciado, por exemplo, pode ter problemas para resolver uma questão de matemática ou interpretar uma atividade de ciências.

Por isso, identificar se o estudante não quer ler ou se está encontrando dificuldades para compreender o que lê é um passo importante para definir como ajudá-lo.

O que a escola pode fazer para estimular a leitura?

Uma das estratégias apontadas por especialistas é permitir que o estudante desenvolva gradualmente confiança na própria capacidade de compreender textos.

Em vez de começar necessariamente por obras longas ou complexas, professores podem trabalhar com textos mais curtos e acessíveis, aumentando o nível de dificuldade progressivamente.

Reportagens, crônicas, contos e textos informativos podem fazer parte desse processo. A escolha também pode considerar assuntos que despertem a curiosidade dos próprios estudantes.

Outra possibilidade é transformar a leitura em uma atividade acompanhada. O professor pode ler junto com a turma, fazer pausas para verificar a compreensão, destacar palavras-chave e retomar trechos que tenham gerado dúvidas.

Essas práticas não precisam ficar restritas às aulas de Língua Portuguesa. A interpretação de textos é uma habilidade utilizada em praticamente todas as áreas do conhecimento.

Leitura precisa fazer sentido para o aluno

Além de ensinar a interpretar, a escola pode ajudar o estudante a perceber a leitura como uma atividade que vai além das obrigações escolares.

Quando o contato com os livros aparece apenas associado a provas, trabalhos e avaliações, existe o risco de que a leitura seja percebida exclusivamente como uma tarefa.

Por outro lado, oferecer diferentes gêneros e permitir que os estudantes tenham algum poder de escolha pode contribuir para tornar a experiência mais significativa.

O objetivo não é abandonar os clássicos ou as obras previstas no currículo, mas ampliar as possibilidades de contato com textos e autores.

Tecnologia pode ser uma aliada

Ferramentas digitais também podem ser utilizadas para aproximar os estudantes dos livros. Plataformas de leitura, aplicativos e recursos de gamificação podem tornar a experiência mais interativa e ajudar a criar uma rotina.

A plataforma Árvore, por exemplo, afirma que seus recursos de gamificação levaram 146 mil estudantes a ler o equivalente a 24 livros por ano. O número, porém, corresponde a um levantamento próprio da empresa e não possui verificação independente mencionada na fonte.

A tecnologia, entretanto, não substitui o trabalho de acompanhamento realizado por professores. Recursos digitais podem estimular a frequência e oferecer diferentes formatos, mas dificuldades de compreensão ainda precisam ser identificadas e trabalhadas pedagogicamente.

Desempenho em leitura também preocupa

A dificuldade dos estudantes brasileiros com a leitura aparece ainda em avaliações internacionais.

Nos resultados do Pisa 2025, divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em setembro, 49% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram pelo menos o nível básico de proficiência em leitura.

O resultado significa que mais da metade dos estudantes avaliados ficou abaixo desse patamar. A pontuação média do Brasil em leitura foi de 408 pontos, enquanto a média dos países da OCDE foi de 466.

Ao mesmo tempo, eventos literários mostram que existe interesse por livros entre parte do público jovem.

A 28ª Bienal do Livro de São Paulo, encerrada em 13 de setembro, recebeu cerca de 760 mil visitantes, segundo os dados divulgados sobre o evento. Entre o público estavam adolescentes que participaram de filas para encontros e sessões de autógrafos.

A diferença entre esses dois cenários reforça uma questão: o desafio pode não ser simplesmente fazer os jovens se interessarem por livros, mas criar condições para que eles encontrem textos com os quais consigam se relacionar e compreender.

Formar leitores exige frequência

O desenvolvimento da leitura não termina quando a criança aprende a decodificar palavras. A alfabetização é uma etapa inicial, enquanto a formação de um leitor envolve prática contínua, compreensão e contato frequente com diferentes textos.

Por isso, a escola pode atuar em duas frentes ao mesmo tempo: fortalecer as habilidades de interpretação e ampliar as oportunidades para que os estudantes leiam por interesse, curiosidade e identificação.

Antes de concluir que um aluno simplesmente não gosta de ler, vale investigar se ele consegue compreender o texto com segurança.

Quando a dificuldade está na compreensão, oferecer apenas outro livro pode não resolver o problema. Nesse caso, o caminho passa por acompanhamento, leitura compartilhada, escolha gradual de textos e uma rotina que permita ao estudante perceber que é capaz de entender aquilo que lê.

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