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Educação – As dificuldades de aprendizagem em matemática na educação básica brasileira podem ter consequências que vão muito além das salas de aula. Segundo especialistas, as lacunas na disciplina podem dificultar a formação de profissionais para áreas estratégicas, como tecnologia, inteligência artificial, ciência de dados, engenharia e indústria.
O problema ganha importância em um momento em que o desenvolvimento tecnológico exige cada vez mais profissionais capazes de interpretar informações, analisar dados e resolver problemas complexos.
Para o mestre em matemática e gerente da Casio Educação, Jalman Lima, uma boa formação matemática está diretamente relacionada à capacidade de produzir conhecimento e desenvolver novas tecnologias.
“O domínio da matemática está ligado à capacidade de interpretar dados, produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e enfrentar problemas complexos. Quanto mais estudantes têm acesso a essa formação, mais o país aumenta seu potencial de inovação”, afirma.
Apenas 27% atingem nível básico em matemática
Os dados mais recentes mencionados na análise mostram o tamanho do desafio. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência em matemática no levantamento de 2022.
O percentual ficou muito abaixo da média dos países integrantes da OCDE, que foi de 69%.
O nível 2 é considerado um patamar básico na avaliação. Na prática, o resultado indica que uma parcela significativa dos estudantes brasileiros apresenta dificuldades para aplicar conhecimentos matemáticos em situações relativamente simples.
A questão não se limita às notas escolares. Quando conceitos fundamentais não são consolidados, as dificuldades podem acompanhar o aluno durante os anos seguintes e comprometer a compreensão de conteúdos mais complexos.
Falhas começam em conceitos fundamentais
Entre os conteúdos apontados como importantes para a construção da aprendizagem estão frações, proporcionalidade, porcentagem, álgebra e interpretação de problemas.
Esses conhecimentos funcionam como uma espécie de base para conteúdos posteriores. Quando o estudante avança sem dominar essas habilidades, pode encontrar obstáculos ao estudar temas como funções, estatística, geometria analítica e física.
A dificuldade também pode aparecer em áreas relacionadas à tecnologia. Programação, ciência de dados e inteligência artificial, por exemplo, exigem diferentes níveis de raciocínio lógico e capacidade de interpretar informações.
“Como muitos conhecimentos matemáticos se apoiam em aprendizagens anteriores, dificuldades nesses conceitos podem afetar a compreensão de conteúdos mais avançados, entre eles funções, estatística, geometria analítica, física e programação”, explica Lima.
Decorar fórmulas não é suficiente
Outro problema apontado pelo especialista é a diferença entre memorizar um procedimento e compreender o raciocínio necessário para solucionar um problema.
“Muitos estudantes memorizam fórmulas, mas têm dificuldade para explicar o raciocínio, interpretar situações reais ou escolher estratégias de resolução”, afirma.
Essa dificuldade pode se tornar ainda mais evidente quando o aluno precisa aplicar determinado conhecimento fora de um exercício tradicional.
Em vez de apenas chegar a uma resposta, o estudante precisa entender por que determinada estratégia funciona, avaliar diferentes possibilidades e justificar sua escolha.
É justamente essa capacidade de raciocínio que ganha importância em áreas científicas e tecnológicas.
Método STEM pode aproximar matemática da realidade
Uma das alternativas apontadas para enfrentar essas dificuldades é a utilização da abordagem STEM, sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
A proposta busca integrar essas áreas na investigação de problemas, na elaboração de projetos e na criação de soluções.
Em vez de tratar a matemática como uma disciplina isolada, atividades desse tipo podem apresentar ao estudante problemas que envolvam diferentes conhecimentos ao mesmo tempo.
Para Lima, projetos baseados em investigação, experimentação, análise de dados e resolução de problemas também podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades como pensamento crítico, criatividade, colaboração e tomada de decisão baseada em evidências.
O erro pode fazer parte do aprendizado
Outra mudança defendida pelo especialista é dar mais atenção ao processo utilizado pelo aluno para chegar à resposta, e não apenas ao resultado final.
Projetos interdisciplinares, debates e exercícios que permitam diferentes estratégias de resolução podem ajudar o estudante a compreender que um problema matemático nem sempre precisa ser solucionado por um único caminho.
“É importante que o professor incentive os alunos a explicar os caminhos, comparar métodos, justificar escolhas e revisar hipóteses. Dentro da abordagem STEM, o erro deve ser entendido como parte do processo investigativo, e não apenas como sinal de fracasso”, afirma Lima.
Formação matemática influencia futuro tecnológico
O desafio, portanto, não está apenas em melhorar o desempenho dos estudantes em avaliações. A qualidade da formação matemática também pode influenciar a capacidade do Brasil de formar profissionais para setores que dependem de raciocínio lógico e análise quantitativa.
Engenharia, inteligência artificial, ciência de dados, automação, finanças e diferentes segmentos da indústria exigem profissionais preparados para interpretar informações e solucionar problemas.
A pergunta que fica é como transformar o ensino da matemática em uma ferramenta de compreensão e investigação, e não apenas em uma sequência de fórmulas para memorizar.
Para um país que pretende ampliar sua participação em áreas de tecnologia e inovação, fortalecer essa base desde a educação básica pode ser uma das peças importantes desse processo.

