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Anthony Fauci
Reprodução internet
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Mundo – Anthony Fauci se tornou um dos rostos mais conhecidos da resposta dos Estados Unidos à pandemia de Covid-19. Décadas antes da crise sanitária, porém, o médico já ocupava uma posição central na saúde pública americana e havia trabalhado com diferentes governos em emergências como AIDS, Ebola e Zika.

Aos 85 anos, Fauci voltou ao centro da disputa política nos Estados Unidos depois de se recusar a responder a perguntas de parlamentares durante uma audiência no Senado em 29 de julho. Orientado por seus advogados, ele invocou mais de 100 vezes a Quinta Emenda da Constituição americana, que protege o direito de uma pessoa de não produzir provas contra si mesma.

O episódio levou um comitê do Senado a acusá-lo de desacato ao Congresso e aprofundou uma disputa antiga entre Fauci e o senador republicano Rand Paul.

Fauci liderou instituto por quase quatro décadas

Fauci dirigiu o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla em inglês) por 38 anos, antes de se aposentar em 2022.

Durante esse período, trabalhou com sete presidentes americanos, de diferentes partidos, começando por Ronald Reagan. Em 2008, recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, uma das principais condecorações civis dos Estados Unidos.

Sua carreira foi marcada pela atuação em diversas emergências de saúde pública. Fauci participou da resposta federal americana à epidemia de AIDS e a surtos de Ebola e Zika, além de outras crises sanitárias.

A experiência acumulada fez com que ele assumisse papel de destaque quando o coronavírus começou a se espalhar pelo mundo.

Como Fauci se tornou o principal rosto da resposta à Covid-19

Durante o primeiro mandato de Donald Trump, Fauci passou a integrar a força-tarefa criada pelo governo para enfrentar a pandemia.

No início da crise, Trump chegou a elogiar publicamente o médico e a destacar sua participação na equipe responsável pela resposta ao coronavírus.

A relação, entretanto, se deteriorou conforme avançava a pandemia.

Fauci passou a ser alvo de críticas de Trump e de setores conservadores por defender medidas como distanciamento social, restrições destinadas a reduzir a transmissão do vírus e o uso de máscaras. Ele também apoiou as vacinas contra a Covid-19, que posteriormente se tornaram um dos temas mais politizados da crise sanitária americana.

O médico sustentava que essas medidas eram respaldadas pelas evidências científicas disponíveis naquele momento.

Diário de Fauci expõe relação tensa com Trump

Anotações do diário particular de Fauci divulgadas pelo Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado registraram sua percepção sobre a evolução da pandemia e sobre as relações dentro do governo.

Em 27 de fevereiro de 2020, Fauci escreveu que havia recebido uma ligação de Trump em casa para conversar sobre o coronavírus. Segundo o relato, o médico aconselhou o presidente a não minimizar a gravidade da ameaça.

Meses depois, Fauci registrou sinais mais claros de desgaste na relação com o presidente.

Em uma anotação de julho de 2020, afirmou que Trump mantinha uma postura cordial pessoalmente, mas compartilhava publicações que o atacavam publicamente.

Os registros também descrevem discussões dentro da Casa Branca sobre a reabertura da economia e a manutenção das medidas de isolamento.

Fauci relatou ainda que autoridades de saúde enfrentavam pressão para acelerar a reabertura do país em meio às preocupações econômicas e eleitorais do governo.

O diário acompanhou acontecimentos relacionados à pandemia até 2022 e também registrou a infecção de Trump e, posteriormente, de Joe Biden pelo coronavírus, além de debates sobre doses de reforço e a chamada “fadiga da Covid”.

Médico virou celebridade durante a pandemia

A exposição pública transformou Fauci em uma celebridade nacional nos Estados Unidos.

O próprio médico registrou em seu diário a surpresa com a quantidade de atenção recebida. Em março de 2020, escreveu que estava se tornando uma “celebridade internacional” e relatou receber ligações de diferentes partes do mundo.

O interesse também apareceu em produtos, desenhos e obras de arte que passaram a retratá-lo.

Em dezembro daquele ano, Fauci registrou a participação de celebridades em uma compilação de vídeos produzida para desejar-lhe feliz aniversário.

A notoriedade, contudo, veio acompanhada de forte polarização política. Para seus defensores, Fauci representava a autoridade científica durante uma crise sem precedentes. Para seus críticos, tornou-se um símbolo das políticas de restrição adotadas durante a pandemia.

Por que Rand Paul e Fauci entraram em conflito?

A relação entre Fauci e Rand Paul, senador republicano pelo Kentucky, tornou-se especialmente tensa durante a pandemia.

Um dos principais pontos de discordância é a origem do SARS-CoV-2, vírus responsável pela Covid-19.

Paul defende a hipótese de que pesquisas realizadas em Wuhan, na China, financiadas por instituições americanas poderiam estar relacionadas à origem do vírus. O senador também acusou Fauci de ter autorizado ou financiado pesquisas de ganho de função.

A expressão “ganho de função” é utilizada para descrever determinados tipos de pesquisa que modificam características de agentes infecciosos para estudar seu comportamento. O termo, entretanto, abrange diferentes tipos de experimentos, e a classificação de um estudo nessa categoria pode depender da definição utilizada.

Fauci rejeitou as acusações de Paul e afirmou que os estudos financiados pelo governo americano não poderiam ter produzido o SARS-CoV-2.

Em seu diário, em julho de 2021, Fauci escreveu que uma análise dos vírus utilizados no laboratório de Wuhan indicava que seria molecularmente impossível que os vírus financiados pelo Instituto Nacional de Saúde tivessem sido manipulados ou evoluído para se transformar no vírus responsável pela pandemia.

Fauci invoca a Quinta Emenda

O conflito chegou a uma nova etapa em julho de 2026.

Durante uma audiência no Senado em 29 de julho, Fauci se recusou a responder às perguntas dos parlamentares e invocou repetidamente a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos.

A emenda inclui a proteção contra a autoincriminação, permitindo que uma pessoa se recuse a fornecer respostas que possam ser utilizadas para incriminá-la.

“Seguindo a orientação dos meus advogados, exercerei meu direito garantido pela 5ª Emenda da Constituição de me abster de responder às suas perguntas”, afirmou Fauci na abertura do depoimento.

Segundo o material divulgado pelo Senado, a resposta foi repetida mais de 100 vezes ao longo da audiência.

O Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais considerou que a postura justificava uma acusação de desacato ao Congresso.

O que pode acontecer agora?

A acusação de desacato não significa, por si só, que Fauci tenha sido condenado por um crime.

O caso envolve uma disputa jurídica sobre os limites do poder de fiscalização do Congresso e o alcance do direito constitucional de não produzir provas contra si mesmo.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos recebeu posteriormente uma recomendação formal relacionada ao caso, que agora pode abrir uma nova frente de disputa jurídica e política.

Os defensores de Fauci afirmam que ele apenas exerceu um direito constitucional. Seus críticos, por outro lado, sustentam que o médico deveria responder aos questionamentos dos parlamentares.

A disputa atual é, portanto, mais um capítulo de uma trajetória que transformou Anthony Fauci de especialista em doenças infecciosas em uma das figuras mais conhecidas e controversas da saúde pública americana.

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