|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
Crimes em silêncio: o caso que chocou o país na década de 90
Na década de 90, enquanto o Brasil atravessava transformações políticas, econômicas e sociais, um dos casos mais perturbadores da história criminal do país acontecia silenciosamente dentro de um hospital público do Rio de Janeiro, conhecido nacionalmente como “Enfermeiro da Morte”. Entre corredores lotados, pacientes fragilizados e plantões exaustivos, um auxiliar de enfermagem passou a ser acusado de transformar a profissão dedicada ao cuidado em instrumento de morte.
O auxiliar de enfermagem Edson Izidoro Guimarães foi apontado pelas investigações como responsável por uma série de assassinatos de pacientes internados no Hospital Salgado Filho, no Méier, zona norte do Rio. O caso ganhou repercussão nacional não apenas pela brutalidade dos crimes, mas pela frieza atribuída ao acusado, pela vulnerabilidade das vítimas e pelas suspeitas de que os homicídios teriam sido cometidos mediante pagamento de propina por serviços funerários.
Décadas depois, o caso ainda é lembrado como um dos episódios mais assustadores da história da saúde pública brasileira. Edson Guimarães não está mais vivo, mas o impacto de seus crimes permanece na memória coletiva e nas discussões sobre ética médica, fiscalização hospitalar e segurança dos pacientes dentro das unidades de saúde.
O hospital onde a confiança virou medo
Aos 42 anos, o funcionário do hospital confessou à polícia ter provocado a morte de pacientes internados na Unidade de Pacientes Traumáticos (UPT). O que inicialmente parecia um caso isolado rapidamente se transformou em uma das investigações criminais mais chocantes da história brasileira, envolvendo suspeitas de assassinatos em série, corrupção dentro de hospitais públicos e um esquema clandestino com funerárias.
Foi nesse ambiente que começaram a surgir mortes consideradas suspeitas. Pacientes internados apresentavam pioras repentinas e inexplicáveis. Alguns morriam logo após procedimentos aparentemente simples. Inicialmente, os óbitos eram tratados como consequências naturais do estado clínico delicado das vítimas.
Mas o padrão começou a chamar atenção e investigações conduzidas pela polícia e pelo Ministério Público apontaram que muitas mortes aconteciam durante os plantões de Edson. Segundo as apurações, pacientes recebiam doses excessivas de medicamentos ou substâncias que provocavam parada cardiorrespiratória.
A investigação que revelou o “Enfermeiro da morte”
As investigações começaram após a denúncia de uma funcionária da limpeza do Hospital Salgado Filho. Identificada apenas como Cátia, ela procurou a direção da unidade afirmando que “coisas ruins” estavam acontecendo dentro do hospital.
Segundo relatos da época, a funcionária disse ter presenciado Edson Izidoro Guimarães aplicando uma injeção em um paciente que morreu logo em seguida.
O relato provocou uma reação imediata da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Policiais civis foram enviados ao hospital e prenderam o auxiliar de enfermagem ainda durante o expediente.
De acordo com a investigação, ao ser confrontado pelos agentes, Edson confessou participação em mortes dentro da unidade hospitalar. Edson utilizava métodos difíceis de serem detectados rapidamente. O principal deles era a aplicação de cloreto de potássio, substância que, em doses elevadas, pode provocar parada cardíaca quase imediata.
As autoridades explicaram que a substância praticamente não deixava vestígios após algum tempo da morte, dificultando a comprovação pericial. Em outros casos, Edson afirmou ter desligado aparelhos respiratórios de pacientes internados em estado grave. Segundo depoimento dado à polícia, ele desligava os equipamentos, aguardava a morte do paciente e religava os aparelhos antes de chamar os médicos.
O elo entre hospitais e empresas funerárias
As investigações revelaram uma prática clandestina que, segundo autoridades da época, já acontecia em hospitais do Rio de Janeiro: funcionários recebiam dinheiro de funerárias para avisar quando pacientes morriam. Edson Izidoro Guimarães confirmou a existência desse esquema durante depoimento.
Segundo ele, empresas funerárias pagavam entre R$ 80 e R$ 100 por informações sobre mortes comuns dentro do hospital. Em casos de vítimas de acidentes de trânsito, os valores poderiam chegar a R$ 1 mil. Hoje em dia, os R$ 100 de 1999 seria equivalente a R$ 502.
Quanto mais rápido uma funerária chegasse à família do morto, maiores eram as chances de fechar contratos funerários antes da concorrência. Para a polícia, Edson teria ultrapassado todos os limites ao transformar esse sistema ilegal em motivação para assassinatos.
O então secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Josias Quintal, declarou que o auxiliar de enfermagem poderia ter começado apenas informando funerárias sobre mortes, mas acabou “perdendo o controle”.
A suspeita era de que o esquema fosse muito maior do que um único funcionário. “Essa história pode ser o fio de uma meada”, afirmou Quintal na época, indicando a possibilidade de envolvimento de outros trabalhadores hospitalares e empresas funerárias.
O julgamento e a condenação
O processo judicial envolvendo o “Enfermeiro da Morte” foi marcado por grande repercussão midiática. As acusações incluíam homicídios qualificados cometidos contra pacientes internados no hospital público. Em determinados momentos do processo, as investigações apontaram que o número de vítimas poderia ultrapassar uma centena, embora nem todos os casos tenham sido formalmente comprovados judicialmente.
A defesa contestava parte das acusações e argumentava sobre fragilidades nas provas técnicas, enquanto o Ministério Público sustentava que existia um padrão claro de atuação criminosa.
Em 2002, o Superior Tribunal de Justiça decidiu manter Edson Guimarães preso, rejeitando pedidos da defesa para que ele respondesse em liberdade. A Justiça considerou a gravidade dos crimes e o impacto social do caso.
O impacto nacional e o trauma coletivo
O escândalo provocou uma ruptura profunda na relação de confiança entre pacientes e profissionais da saúde.
A ideia de que um auxiliar de enfermagem pudesse usar seus conhecimentos médicos para matar pacientes indefesos causou pânico em todo o país.
Hospitais públicos passaram a enfrentar desconfiança crescente, especialmente em relação ao controle de medicamentos, fiscalização de funcionários e atuação de empresas funerárias dentro das unidades.
O caso também levantou debates éticos sobre cuidados paliativos, eutanásia, negligência hospitalar e corrupção estrutural no sistema de saúde brasileiro.
Especialistas apontaram que o episódio expôs falhas graves de fiscalização e ausência de protocolos rígidos em hospitais da época.
O fim da vida do “Enfermeiro da Morte”
Anos após sua condenação e depois de se tornar um dos criminosos mais conhecidos do país, Edson Izidoro Guimarães, morreu longe dos holofotes que marcaram sua trajetória criminal.
Sua morte encerrou definitivamente a história de um dos casos mais perturbadores da crônica policial brasileira, mas não apagou as cicatrizes deixadas nas famílias das vítimas e nos profissionais que viveram os acontecimentos dentro do hospital.
Até hoje, o episódio segue sendo lembrado em reportagens especiais, documentários, fóruns sobre serial killers brasileiros e estudos sobre crimes cometidos em ambientes hospitalares.
Um caso que ainda levanta perguntas
Mais de três décadas depois dos crimes, o caso do “Enfermeiro da Morte” continua cercado por questionamentos. O número real de vítimas jamais foi completamente esclarecido. Também permanecem dúvidas sobre falhas administrativas, possíveis omissões institucionais e a dificuldade de detectar assassinatos em ambientes hospitalares.
O episódio também deixou uma herança incômoda para o sistema de saúde brasileiro: a percepção de que hospitais, embora sejam locais de cura, não estão imunes à violência.
Em meio a corredores onde famílias buscavam esperança, o país descobriu que o medo também podia vestir jaleco.

