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Triangulo Mineiro – Uma cena incomum tem chamado a atenção de motoristas e pedestres em Uberlândia: uma nascente natural com pequenos peixes em plena Avenida Rondon Pacheco, uma das vias mais movimentadas da cidade, com cerca de 19,2 mil veículos por dia.
O contraste entre o fluxo intenso de carros e a presença de vida aquática revela um fenômeno natural típico do Cerrado, e também levanta reflexões sobre urbanização e meio ambiente.
Por que existem nascentes no meio da avenida?
A explicação está sob o asfalto. A avenida foi construída sobre o antigo leito do córrego São Pedro, o que favorece o surgimento de nascentes.
Segundo especialistas da Universidade Federal de Uberlândia, esse tipo de ocorrência é comum no Cerrado, onde o lençol freático fica próximo da superfície. Isso permite que a água brote naturalmente em determinados pontos.
Na prática, é como se a cidade tivesse sido erguida sobre um “território vivo”, que insiste em reaparecer.
Pequenos peixes resistem em ambiente urbano
Nas águas rasas da nascente, é possível observar pequenos peixes do gênero Phalloceros, conhecidos por sua alta resistência.
Esses animais convivem com outros organismos aquáticos, como girinos, larvas e insetos, formando um microecossistema em meio à cidade.
De acordo com especialistas, essas espécies conseguem sobreviver até em ambientes com pouca oxigenação e até certo nível de poluição, uma adaptação que ajuda a explicar sua presença em áreas urbanas.
Natureza resiliente e pressionada
Apesar da beleza curiosa, o cenário também revela um lado preocupante. A área onde hoje passa a avenida era originalmente uma vereda, ecossistema típico do Cerrado, associado a nascentes.
A ocupação urbana alterou profundamente esse ambiente. Segundo análise de especialistas, intervenções desse tipo podem contribuir para problemas recorrentes, como alagamentos na região.
A imagem é quase simbólica: a natureza encontra formas de resistir, mesmo em condições adversas.
De onde vieram os peixes?
Há duas hipóteses principais para a presença dos peixes:
- Introdução histórica: nas décadas de 1960 e 1970, espécies como o Phalloceros foram distribuídas para controle de mosquitos
- Ação humana recente: moradores podem ter soltado peixes de aquário no local
Hoje, especialistas apontam que essas espécies não são tão eficazes no controle de insetos e podem, inclusive, impactar espécies nativas por sua rápida reprodução.
É seguro pegar esses peixes?
A recomendação é clara: não.
Mesmo sem registros de doenças graves por contato direto, os especialistas orientam evitar o manuseio. Os peixes podem estar expostos a substâncias químicas ou parasitas.
Também não é indicado levá-los para aquários ou consumo.
Quem é responsável pela preservação?
A gestão dessas áreas envolve diferentes órgãos. A prefeitura de Uberlândia informou que a responsabilidade está ligada ao Instituto Mineiro de Gestão das Águas, que realiza ações de preservação, embora detalhes não tenham sido divulgados.
Já o Ibama aponta que a proteção direta das nascentes é atribuição do município.
O que esse fenômeno revela?
Mais do que uma curiosidade urbana, a presença de peixes e nascentes na avenida levanta uma pergunta inevitável: até que ponto as cidades conseguem conviver com os ecossistemas originais?
O caso de Uberlândia mostra que, mesmo sob concreto e tráfego intenso, a natureza encontra brechas para existir, ainda que de forma limitada.
O surgimento de nascentes e peixes na Avenida Rondon Pacheco é um lembrete da força dos ciclos naturais e das consequências da ocupação urbana.
Entre o asfalto e a água, fica um cenário que mistura resistência, adaptação e alerta ambiental.

