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Educação – A política de cotas no ensino superior brasileiro voltou ao centro do debate após uma lei de Santa Catarina tentar proibir a reserva de vagas com base racial nas universidades estaduais. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que já formou maioria para considerar a medida inconstitucional.
Mas, afinal, como funciona a política de cotas no Brasil? Ela é baseada apenas em critérios raciais? E quais impactos já foram registrados ao longo dos anos? A seguir, veja um guia completo para entender o tema.
Como funciona a política de cotas no ensino superior
A política de cotas no ensino superior foi instituída nacionalmente pela Lei nº 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, atualizada em 2023.
Na prática, ela determina que no mínimo 50% das vagas em universidades e institutos federais sejam destinadas a estudantes que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas.
Dentro desse percentual, há subdivisões:
- Metade das vagas é reservada para estudantes com renda familiar per capita de até um salário mínimo
- A outra metade contempla alunos de escola pública independentemente da renda
Além disso, existem recortes adicionais proporcionais à população de cada estado, com base em dados do IBGE, incluindo:
- Pretos, pardos e indígenas (PPI)
- Quilombolas
- Pessoas com deficiência
Esse modelo faz com que a distribuição das vagas varie conforme a composição demográfica de cada região do país.
A política considera apenas critérios raciais?
Não. Embora o debate público frequentemente destaque a questão racial, a política de cotas no ensino superior é estruturada sobre três pilares principais:
- Origem escolar (rede pública)
- Renda familiar
- Raça ou etnia
O critério racial atua como um complemento dentro de um modelo mais amplo, que busca reduzir desigualdades históricas no acesso à educação.
Universidades estaduais precisam adotar cotas?
Diferentemente das instituições federais, universidades estaduais e municipais não são obrigadas a seguir a Lei de Cotas.
Ainda assim, muitas adotaram políticas semelhantes ao longo dos anos. Um levantamento do Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (Gemaa), ligado à Uerj, mostra que, em 2023, as vagas destinadas a cotas nas universidades estaduais praticamente se igualaram às da ampla concorrência.
Foram:
- 49,9% das vagas para cotas
- 50,1% para ampla concorrência
Caso Santa Catarina: qual foi o argumento do governo?
O governo de Santa Catarina sancionou uma lei que proíbe as cotas raciais nas universidades estaduais. A justificativa apresentada inclui:
- Defesa da meritocracia
- Busca por uma “concorrência mais justa”
- Foco em critérios econômicos
A gestão estadual também argumentou que o perfil demográfico local seria diferente do restante do país, com maior proporção de população branca.
O que diz o STF sobre a política de cotas
O STF já tem entendimento consolidado sobre o tema. Em 2012, a Corte decidiu por unanimidade que as cotas raciais são constitucionais.
No caso mais recente, envolvendo Santa Catarina, o tribunal formou maioria para derrubar a lei estadual. O relator, ministro Gilmar Mendes, destacou que políticas desse tipo são instrumentos para promover igualdade material.
Segundo ele, ações afirmativas ajudam a enfrentar desigualdades estruturais e estão alinhadas à Constituição.
Qual foi a primeira universidade a adotar cotas no Brasil?
A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) foi pioneira, implementando o sistema em 2003.
Desde então, outras instituições passaram a adotar políticas semelhantes, como:
- USP (2018)
- Unicamp (2019)
Mais recentemente, universidades também passaram a criar cotas para pessoas trans, travestis e não binárias, ampliando o escopo das ações afirmativas.
Cotistas têm desempenho inferior? O que dizem os dados
Dados do Censo da Educação Superior de 2024, realizado pelo Inep, indicam que alunos cotistas apresentam taxa de conclusão maior do que não cotistas:
- 49% dos cotistas concluem a graduação
- 42% dos não cotistas chegam ao final do curso
Embora as notas de ingresso possam ser, em média, entre 5% e 10% menores, essa diferença tende a diminuir ao longo da graduação.
Impactos das cotas no perfil dos estudantes
Desde a implementação da política, mais de 1,4 milhão de estudantes ingressaram no ensino superior por meio das cotas entre 2013 e 2024.
Os principais efeitos observados incluem:
- Maior presença de estudantes de baixa renda
- Ampliação da diversidade racial nas universidades
- Acesso ampliado a cursos tradicionalmente mais concorridos
Estudos acadêmicos também apontam que a política influenciou decisões educacionais, como a migração de alunos para escolas públicas no ensino médio.
A política de cotas no ensino superior se consolidou como uma das principais estratégias de inclusão educacional no Brasil. Ao combinar critérios sociais, educacionais e raciais, o modelo busca equilibrar oportunidades em um sistema historicamente desigual.
Com o debate reacendido no STF, a discussão segue atual: até que ponto ações afirmativas são necessárias para garantir igualdade de acesso? A resposta, ao que indicam decisões judiciais e dados recentes, passa não apenas pela lei, mas pelos efeitos concretos já observados nas universidades.
