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Desacelerar para não desumanizar
O sociólogo polonês Zygmund Bauman lançou Modernidade Líquida no ano 2.000. No livro, ele descreve os sintomas de fragilidade, volatilidade e superficialidade dos relacionamentos humanos desse nosso tempo. Os laços se transformaram em conexões facilmente descartáveis. O medo de perder a liberdade individual inibe o aprofundamento dos vínculos. Pessoas e relacionamentos ganham características de bens de consumo. São substituídos quando trazem algum problema ou quando a satisfação obtida com eles se desgasta ou diminui.
Um quarto de século depois, a tecnologia e as redes sociais vão potencializando ao máximo aquilo que o sociólogo diagnosticava.
A jornalista Michelle Prazeres, fundadora do Instituto Desacelera, embarcou numa cruzada: a de vacinar as pessoas contra a doença da velocidade.
Será a velocidade da vida atual uma doença? Existe uma vacina contra ela?
No texto Algorítmo – Algoz do Ritmo (belíssimo título !!!), publicado no final de março no portal UOL, ela defende essa ideia.
Você aumenta a velocidade dos áudios que recebe? Qual o sentido de ouvir conteúdos com a voz do outro acelerada, parecida com a do Pato Donald? Quem usa esse dispositivo do WhatsApp fica com o conteúdo da mensagem. Mas descarta a entonação, a emoção, a alegria ou até a aflição da pessoa que mandou o áudio. Descarta na verdade a outra pessoa. Em troca de quê? De economizar alguns segundos? Para quê? Para dedicar mais tempo às plataformas?
A questão central apresentada pela jornalista que batalha pela desaceleração é essa: os dispositivos tecnológicos se disfarçam de ferramentas mas na verdade têm características culturais embutidas: influenciam com valores, crenças e práticas de maneira sub-repticia, clandestina. A velocidade é um desses valores. O algoritmo, nessa visão, não bombardeia só com conteúdos e produtos. Sugere também comportamentos, padrões e parâmetros. Entre eles desfazer relacionamentos e distanciar-se dos amigos para ter mais tempo para exercer o que ela chama de produtividade tóxica e para navegar nas próprias plataformas.
Você que ainda tem a paciência necessária para acompanhar este texto já deve ter reparado que a nossa percepção da passagem do tempo está mudada. Tudo passa muito rápido. Que a fatia de tempo que sobra para estar com as pessoas que a gente curte, encolheu. Como também encolheu o tempo disponível para estar à toa, na ociosidade, descansando. As séries e os filmes se tornaram obrigatórios. Eles também oferecem dispositivos de aceleração. O treino. A qualificação profissional fora do trabalho. Os clubes onde as pessoas se encontravam perderam terreno para as áreas comuns com churrasqueiras e saunas dentro do condomínio. As associações e sindicatos se enfraqueceram.
Ao fragilizar o vínculo, você desumaniza o outro. Coisifica.
Zygmund Bauman também precisa acelerar a própria reencarnação antes que algum aventureiro lance mão de uma nova teoria: A Pós-Modernidade Vaporosa.