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 Filhos criminosos e pais punidos

 

A relação entre pai e filho representa um vínculo muito forte. Eterno. Daqui a um milhão de anos, você continua pai de seu filho e filho do seu pai.

Mas, como toda relação, apresenta variações muito significativas. Tem contornos muito indefinidos. Vai do amor ao ódio, do carinho à agressão, do acolhimento à rejeição, da proteção ao assassinato. Tudo em via de mão dupla: do pai para o filho e também do filho para o pai.

Nesta semana, dois episódios jogam luz sobre um elemento importante e às vezes subestimado nessa relação: a responsabilidade do pai por atos cometidos pelo filho.

Nos Estados Unidos, o pai Colin Gray foi condenado criminalmente por assassinatos cometidos pelo filho, batizado meio que profeticamente como Colt Gray.

Colt, em setembro de 2024, na cidade de Winder, no estado da Georgia, matou dois colegas e dois professores. Ele tinha 14 anos. Tinha ganhado de presente, no Natal anterior, um rifle semiautomático. Também ganhou munição.

Ele escondeu o rifle na mochila e levou para a escola. Planejou cuidadosamente os crimes. O pai estava alertado para essa possibilidade. O filho vinha dando sinais de desequilíbrio mental e emocional. Tinha no quarto uma espécie de altar em que cultuava um assassino de escola, Nikolas Gray. Só isso já bastaria para que o Colin, o pai, buscasse tratamento psiquiátrico para o filho Colt e afastasse dele qualquer tipo de arma: canivete, estilete, estilingue, caco de vidro, espingarda de chumbinho… Rifle semiautomático com munição? Como assim?

Colin foi condenado por homicídio culposo, aquele em que não há a intenção de matar. Poucos milímetros devem ter separado o culposo do doloso, aquele em que há intenção.

No Rio de Janeiro, José Carlos Simonin tinha o cargo de subsecretário de Governança, Compliance e Gestão na secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do governo estadual. Salário de R$ 16.582, quatro vezes e meia maior que o salário médio do trabalhador brasileiro divulgado nesta semana pelo IBGE, de R$ 3.652.

Na quarta-feira, José Carlos foi exonerado pelo governador Cláudio Castro. O motivo, o envolvimento do filho dele no estupro coletivo de uma jovem de 17 anos no bairro de Copacabana no dia 31 de janeiro. Vítor Hugo Simonin é um dos 4 estupradores maiores de idade.

O comunicado da demissão do pai de Vítor Hugo fala em “resguardar a integridade institucional”. Não vale nem a pena comentar a “integridade institucional” de um governo que teve meia dúzia de governadores recentes presos por corrupção.

Mas é muito provável que José Carlos não tenha prestado atenção nas amizades, nas conversas, nas tendências do filho. Nem na maneira como ele tratava ou se referia às mulheres.

O que vale comentar é que o pai condenado à prisão nos Estados Unidos e o outro demitido do cargo no Rio de Janeiro pagam pela insanidade de filhos que eles criaram.

Até onde vai a responsabilidade? Será que eles tinham consciência dela? Pecaram por ação ou por omissão? Negligência ou incompetência?

Colin Gray, na prisão, e José Carlos Simonin, desempregado, vão ter bastante tempo para pensar nessas questões. Nós, que somos pais ou pretendemos ser, também.

  

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