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Trump: estratégia, delírio de poder ou megalomania?
Donald Trump nasceu em 14/6/1946, pouco mais de um ano depois do final da segunda guerra mundial.
Na infância dele, em 1956, o filme Giant (no Brasil, Assim Caminha a Humanidade) exibia um elenco de estrelas de primeira grandeza: Liz Taylor, Rock Hudson e James Dean. Oscar de melhor diretor a George Stevens. Para a revista Time, o “retrato de uma era”, o “maior legado de anti-intolerância racial já exibido numa tela”. O contexto era de um mundo ainda ressentido dos horrores daquela guerra. Um mundo que tentava reestruturar as relações internacionais em torno da Organização das Nações Unidas, recém-criada na década anterior.
70 anos depois do filme e quase 80 depois do primeiro choro de Trump, a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela mostra que não foi daquele jeito que a humanidade caminhou. Houve uma guinada de 180 graus. Reincorporamos a intolerância racial. Acrescentamos a esse ódio a xenofobia contra imigrantes. Desistimos da tentativa de mediar conflitos na ONU. Voltamos a atropelar o conceito de soberania nacional. Criamos a desinformação planejada. Substituímos o debate político pela polarização de argumentos rasos e (no Brasil) pela cadeirada. Até a esfericidade do planeta está questionada…
Na terça-feira, no jornal ISFM News, o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (SP), Gilberto Rodrigues, disse que o Direito Internacional, que regeu as relações entre os países nestes 80 anos, “está esgarçado mas ainda está em vigência”.
Até quando?
O governo Trump apresenta a prisão do ditador Nicolas Maduro em território venezuelano como uma operação policial. A justificativa é esfarrapada. Maduro não foi julgado e portanto não tem condenação. Não houve pedido de extradição. Seria como uma força especial italiana no Brasil prendendo e levando o ex-jogador Robinho para Roma. Ou o 007 sequestrando Benjamin Netanyahu em Tel Aviv para uma cela em Londres. E essas duas aberrações seriam ainda menos afrontosas porque tanto Robinho quanto Netanyahu têm condenações a cumprir: o ex-jogador do Santos, da justiça italiana, por agressões sexuais, e o israelense, do Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra em Gaza.
É evidente que a derrubada de Maduro pode ser positiva. Trata-se de um ditador que se manteve no poder com eleições fraudadas. Que perseguiu com truculência opositores, jornalistas e juízes. O saldo mais representativo do desastre do chavismo é o de 8 milhões de venezuelanos refugiados em outros países. Mas os fins possivelmente benéficos não justificam os meios tortos.
Trump redesenhou as relações de comércio internacional com as tarifas que impôs a produtos de outros países. Agora tenta esboçar contornos de uma nova configuração geopolítica mundial. Na primeira ação usa a potência econômica ainda hegemônica dos Estados Unidos. Na segunda, a supremacia militar que, também provisoriamente, ainda é do país dele.
Nas duas ações o traço predominante é a megalomania que Trump levou para a Casa Branca. Ainda não dá para saber se esse distúrbio de personalidade vai receber um cabresto ou um aval do eleitor dos Estados Unidos nas eleições de governadores, deputados e senadores do final deste ano.
Até lá, Rússia, China e União Europeia vão ter de decidir, como os ratos da fábula, se alguém põe o guizo no pescoço do felino Trump. Porque no tabuleiro do jogo de War, ele parece estar acumulando exércitos para ocupar, depois da Venezuela, Canadá, Groenlândia, Canal do Panamá e, quem sabe, México, Colômbia, Cuba…
