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Política – Declarações questionando o direito das mulheres ao voto ganharam espaço nas redes sociais brasileiras nos últimos meses e passaram a aparecer em podcasts, vídeos e publicações de influenciadores. O fenômeno reúne pessoas com posições diferentes, desde quem afirma ser contrário ao voto feminino até quem diz defender modelos alternativos de representação política.
A discussão ganhou maior visibilidade em junho de 2026, depois de declarações do influenciador Paulo Figueiredo sobre o comportamento eleitoral das mulheres. A partir daí, antigos vídeos e falas de outros influenciadores também voltaram a circular.
Uma investigação publicada pela BBC News Brasil acompanhou durante três meses esse ambiente digital e entrevistou algumas das pessoas envolvidas no debate. O levantamento identificou a presença de homens e mulheres que questionam o voto feminino, defendem algum tipo de voto familiar ou fazem críticas à participação das mulheres na política.
Mas o que está por trás desse discurso? E até onde vai, juridicamente, a possibilidade de mudar o direito ao voto no Brasil?
O que dizem os influenciadores
Parte dos conteúdos analisados está relacionada à chamada “machosfera” e à cultura redpill, comunidades digitais que discutem masculinidade, relacionamentos e papéis sociais.
Entre os nomes citados pela BBC está Renato Amoedo, conhecido nas redes como Renato 38ão. Em publicações e entrevistas, ele questionou o voto das mulheres e relacionou a conquista do sufrágio feminino a mudanças econômicas e sociais que, segundo sua interpretação, teriam reduzido a dependência das mulheres em relação aos homens.
Outro espaço citado na investigação é o podcast Redcast, apresentado pelo influenciador Junior Masters.
Em uma edição de janeiro de 2026, a candidata a deputada federal Ana Hering participou de uma conversa na qual foi discutida a possibilidade de acabar com o voto feminino. Durante o programa, Hering afirmou que “o mundo começou a desandar quando a mulher começou a dar a opinião dela”.
À BBC News Brasil, posteriormente, Hering afirmou que fazia uma piada e que havia entrado na brincadeira proposta pelo apresentador. Ela também disse que não é contrária ao voto feminino e que suas declarações não representariam sua posição política.
Masters, por sua vez, afirmou à reportagem que não é contra o voto feminino especificamente, mas contra o voto de maneira geral. Ele não concedeu entrevista para explicar detalhadamente a afirmação.
Há também mulheres que questionam o sufrágio
O fenômeno não está restrito a homens.
A reportagem cita a influenciadora Fernanda Guardian, que declarou em uma publicação que abriria mão do próprio direito ao voto e classificou o sufrágio feminino como um erro.
Também aparece no levantamento a influenciadora Pietra Bertolazzi. Em entrevista à BBC, ela afirmou ser contrária ao voto feminino dentro de uma crítica mais ampla ao Estado moderno e à democracia.
Bertolazzi disse que não defende retirar das mulheres o direito de votar e que sua posição está relacionada à defesa de uma monarquia e à rejeição do modelo político atual.
A diferença entre essas posições é importante: questionar a democracia, defender outro sistema político e defender especificamente a retirada do direito de voto das mulheres são propostas distintas, embora possam aparecer misturadas no debate das redes sociais.
O que é a ideia de voto familiar?
Outra proposta que aparece nesse ambiente é o chamado voto familiar ou “democracia familiar”.
A ideia, apresentada em determinados círculos conservadores, substitui a lógica de um voto por indivíduo por algum tipo de representação política da família. Em algumas versões, a decisão final caberia ao homem considerado chefe da família.
A reportagem da BBC relaciona esse debate ao Livro Amarelo, publicação associada ao partido Missão. O próprio movimento apresenta atualmente o livro em seu site como parte de seu projeto político.
A existência de uma proposta ou discussão em uma publicação, porém, não significa necessariamente que ela faça parte de um programa eleitoral. Segundo a reportagem, Renan Santos afirmou à CNN Brasil que o voto familiar não está em seu programa.
O site oficial da Missão apresenta Santos como fundador do partido e disponibiliza informações sobre seus candidatos nas Eleições 2026.
Como funciona o voto feminino no Brasil atualmente?
O direito de participação política das mulheres no Brasil foi reconhecido nacionalmente pelo Código Eleitoral de 1932, instituído pelo Decreto nº 21.076. O texto estabelecia que era eleitor o cidadão maior de 21 anos “sem distinção de sexo”.
Naquele primeiro momento, porém, havia diferenças nas regras de obrigatoriedade do voto. A igualdade entre homens e mulheres no alistamento obrigatório só foi consolidada posteriormente, com a Constituição de 1946.
Atualmente, a Constituição Federal estabelece que a soberania popular é exercida pelo sufrágio universal, pelo voto direto e secreto e com valor igual para todos. A regra está no artigo 14 da Constituição.
Isso significa que o sistema eleitoral brasileiro não estabelece pesos diferentes para os votos de homens e mulheres.
A Constituição permite retirar o voto das mulheres?
A discussão encontra limites importantes na Constituição.
O artigo 14 estabelece o sufrágio universal e o voto com valor igual para todos. A Constituição também determina a igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações.
Além disso, o artigo 60 da Constituição estabelece limites ao poder de reforma constitucional, incluindo a proteção do voto direto, secreto, universal e periódico.
Por isso, a discussão sobre uma eventual retirada do direito das mulheres ao voto não se resume à aprovação de uma lei ordinária ou a uma simples alteração das regras eleitorais.
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, afirmou à BBC News Brasil que a retirada do direito ao voto feminino encontraria impedimentos constitucionais.
Por que esse discurso ganhou espaço nas redes?
Uma das características do fenômeno é a circulação de cortes de podcasts e vídeos fora do contexto original.
Uma fala feita inicialmente como provocação, sátira ou comentário dentro de um programa pode ser recortada e compartilhada separadamente. Ao mesmo tempo, algumas pessoas assumem explicitamente posições contrárias ao voto feminino ou à democracia representativa.
Esse ambiente dificulta separar três situações diferentes: quem realmente defende a retirada do voto feminino, quem utiliza o assunto como provocação e quem critica o sistema eleitoral sem defender especificamente a exclusão das mulheres.
A própria reportagem da BBC encontrou versões diferentes entre os entrevistados quando eles foram questionados posteriormente sobre declarações feitas em podcasts e redes sociais.
O debate sobre mulheres e comportamento eleitoral
Outra parte da discussão envolve afirmações de que mulheres seriam mais suscetíveis a determinados discursos políticos ou teriam características cognitivas que explicariam suas escolhas eleitorais.
Esse tipo de argumento também apareceu nos conteúdos analisados pela BBC.
A neurocientista Suzana Herculano-Houzel contestou a ideia de que homens e mulheres tenham tipos de cérebro que permitam determinar, de forma geral, como cada grupo pensa ou toma decisões.
A existência de diferenças biológicas entre os sexos não permite concluir, por si só, que homens sejam naturalmente mais racionais ou que mulheres sejam mais influenciáveis. Características individuais, sociais, culturais e experiências de vida também fazem parte da formação de comportamentos e escolhas.
Por que o assunto ganhou importância no debate político?
O voto feminino representa uma parcela fundamental do eleitorado brasileiro. Questionamentos sobre sua validade, portanto, ultrapassam uma discussão sobre comportamento individual e entram no debate sobre quem deve participar das decisões políticas.
A historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia, ouvida pela BBC, avaliou que a repetição desse tipo de discurso pode contribuir para normalizar questionamentos sobre a própria democracia.
Por outro lado, defender mudanças no sistema político ou criticar a democracia é, em si, uma manifestação política protegida pela liberdade de expressão. O ponto de diferença está entre defender uma ideia e tentar transformá-la em uma restrição concreta de direitos políticos.
Esse limite é especialmente relevante em um ambiente digital no qual uma frase pode alcançar milhares de pessoas em poucas horas.
O Brasil chega às Eleições 2026, portanto, em meio a um debate que mistura liberdade de expressão, participação política, igualdade entre homens e mulheres e diferentes propostas sobre o funcionamento da democracia.
Para o eleitor, compreender quem defende cada ideia, em que contexto as declarações foram feitas e se determinada proposta integra efetivamente um programa político é essencial para interpretar o debate sem confundir provocação, opinião pessoal e posição formal.

