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Mundo – A Austrália anunciou novas regras para o programa de visto Working Holiday Maker, usado por jovens estrangeiros que viajam pelo país e podem trabalhar durante a estadia. A principal mudança é a criação de um sistema de sorteio para quem pretende permanecer por um segundo ou terceiro ano, além da redução no número de vagas disponíveis.
Para o terceiro ano, o limite cairá de cerca de 31 mil pessoas no último ano para apenas 5 mil. Já o segundo ano terá limite de 45 mil vagas, contra aproximadamente 57 mil no período anterior.
A mudança foi anunciada em 17 de setembro pelo ministro do Interior australiano, Tony Burke, como parte de uma reforma mais ampla das regras de imigração. Segundo o governo, o objetivo é ter maior controle sobre o número de pessoas que permanecem temporariamente no país e priorizar profissionais considerados necessários à economia australiana.
Como vai funcionar o sorteio para mochileiros
As exigências de trabalho regional continuam valendo para quem quiser participar do processo.
Para concorrer ao segundo ano do visto, o candidato continuará precisando completar 88 dias de trabalho em áreas regionais. Para o terceiro ano, será necessário cumprir seis meses de trabalho regional.
A diferença é que cumprir esses requisitos não garantirá mais automaticamente a extensão do visto. Depois de completar o período exigido, o trabalhador poderá participar do sorteio correspondente.
No segundo ano, serão disponibilizadas até 45 mil vagas. Para o terceiro, apenas 5 mil pessoas poderão ser selecionadas. No ano anterior, cerca de 57 mil mochileiros permaneceram na Austrália pelo segundo ano e 31 mil chegaram ao terceiro.
O programa Working Holiday Maker permite que jovens estrangeiros passem um período prolongado na Austrália e trabalhem para ajudar a financiar a viagem. O país mantém diferentes modalidades do programa, incluindo os vistos das subclasses 417 e 462.
Agricultores temem falta de trabalhadores
A mudança preocupa principalmente regiões que dependem da mão de obra dos mochileiros para atividades sazonais.
Agricultores australianos utilizam esses trabalhadores em tarefas como colheita de frutas e outros serviços temporários. Entidades do setor afirmam que a redução pode dificultar a contratação de funcionários justamente antes de períodos importantes de colheita.
A National Farmers’ Federation, principal organização representativa dos agricultores australianos, afirmou que as novas regras podem afetar a segurança alimentar e as economias regionais. A entidade também criticou o aumento no tempo de processamento dos vistos, que chegou a levar meses em alguns casos.
O governo, por outro lado, afirma que pretende direcionar a política migratória para profissionais de áreas consideradas estratégicas, como construção, saúde, agricultura, pesca, recursos naturais e ensino.
Setor de turismo também prevê impacto
Os mochileiros não representam apenas mão de obra temporária. Eles também movimentam a economia das cidades onde vivem e trabalham.
Empresas de hospedagem, restaurantes, bares, agências de turismo e operadores de atividades em regiões afastadas dos grandes centros dependem desse público durante parte do ano.
A Tourism Council Western Australia, entidade que representa o turismo no estado, calcula que a região poderá perder cerca de 4.500 mochileiros que costumavam trabalhar durante períodos de maior movimento. A organização estima impacto de pelo menos 62 milhões de dólares australianos nos gastos turísticos e de 425 empregos locais.
Em outras regiões, representantes do setor também afirmam que a incerteza sobre a possibilidade de conseguir o segundo visto pode fazer com que parte dos viajantes deixe de buscar empregos regionais já no primeiro ano.
Britânicos terão regras diferentes
As mudanças também acontecem em meio ao crescimento expressivo do número de mochileiros britânicos na Austrália.
Desde a entrada em vigor do acordo de livre comércio entre os dois países, cidadãos britânicos passaram a ter regras mais flexíveis para permanecer por até três anos. Eles não precisam cumprir o mesmo requisito de trabalho regional utilizado para outros participantes do programa, e o limite de idade foi ampliado de 30 para 35 anos.
Segundo o governo australiano, o número de britânicos com vistos de férias e trabalho passou de cerca de 17 mil durante o período da pandemia para quase 80 mil atualmente.
Por causa dessas regras específicas, as solicitações britânicas não entrarão no mesmo processo de retomada rápida de análise aplicado a determinados vistos que exigem trabalho regional. O governo australiano afirmou que continuará processando esses pedidos em ritmo mais lento.
Governo também endurece outras regras migratórias
A mudança nos vistos para mochileiros faz parte de um pacote mais amplo anunciado pelo governo do primeiro-ministro Anthony Albanese.
Entre as medidas estão restrições para estudantes internacionais que pretendem levar familiares para a Austrália, maior fiscalização de pessoas que permanecem no país após o vencimento do visto e alterações no processamento de determinadas categorias de trabalhadores qualificados.
O governo estabeleceu como referência uma migração líquida de 245 mil pessoas neste ano e de 225 mil no próximo ano fiscal. Burke afirmou que as mudanças buscam dar ao governo maior controle sobre componentes da imigração considerados dependentes da demanda.
Para os mochileiros que já estão na Austrália, porém, ainda existe uma questão importante: como exatamente as novas regras afetarão quem já iniciou o período de trabalho necessário para tentar permanecer por mais um ou dois anos. O governo anunciou a estrutura do novo sistema, mas detalhes de implementação e transição ainda são relevantes para quem já está no país.

