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Mundo – Equipes de resgate do Nepal e especialistas estrangeiros correm contra o tempo para localizar trabalhadores que podem estar vivos e presos dentro de túneis de usinas hidrelétricas atingidas pelas fortes enchentes que devastaram o país na semana passada.
Segundo a agência de desastres do Nepal, 933 trabalhadores estão desaparecidos em diferentes projetos hidrelétricos ao longo do rio Trishuli, que atravessa vários distritos de uma região montanhosa e remota.
Ainda não se sabe quantas dessas pessoas estavam dentro dos túneis quando as águas atingiram as instalações nem quantas podem ter sobrevivido. A lama, a água e os danos causados às estradas e pontes dificultam o trabalho das equipes.
A operação também conta com especialistas enviados pela Índia e pela China.
Túneis de quilômetros dificultam buscas
Cada usina apresenta desafios diferentes para os socorristas. Algumas possuem túneis com vários quilômetros de extensão, o que torna difícil determinar onde trabalhadores eventualmente presos podem estar.
Na usina hidrelétrica Trishuli 3A, 42 pessoas foram dadas como desaparecidas. As equipes trabalham para abrir uma passagem que permita acessar a área subterrânea da instalação.
O túnel que conduz à casa de força subterrânea possui mais de quatro quilômetros de extensão. Dezenas de trabalhadores estavam no local quando a enchente atingiu a usina.
Arnold Dix, geólogo australiano que auxilia as equipes, afirmou que ainda não é possível saber quanto do túnel foi tomado por lama ou água.
“Então, talvez só tenhamos que escavar 10 metros, ou talvez tenhamos que escavar 100 metros”, disse.
A própria operação envolve riscos. Segundo Dix, a sala das turbinas pode ter sido inundada caso os sistemas de desligamento de emergência tenham falhado. Além disso, perfurações realizadas pelos socorristas podem provocar a liberação de água acumulada.
Seis pessoas são procuradas em outra usina
Na usina hidrelétrica de Chilime, seis pessoas são consideradas desaparecidas, segundo Jenjen Lama, guia de montanha que participa das operações de busca.
A instalação possui um túnel de aproximadamente 250 metros que desce a partir da entrada antes de se conectar a uma estrutura maior, onde ficam áreas como a sala de controle, uma área de manutenção e o transformador.
No domingo (30), os socorristas descobriram que a passagem estava completamente bloqueada por sedimentos e lama. Em alguns pontos, o material chegou à altura do peito dos integrantes da equipe.
Os profissionais conseguiram avançar cerca de 130 metros antes de interromper o trabalho.
Segundo Lama, a usina possui uma cozinha e estoque de alimentos, mas ainda não há confirmação sobre as condições de oxigenação no interior da estrutura.
Equipes usam drones, câmeras e perfurações
As equipes do Exército e da polícia do Nepal receberam reforços de especialistas em resgate enviados pela Índia e pela China.
Entre os equipamentos utilizados estão drones com câmeras térmicas, usados para procurar sinais de sobreviventes e identificar possíveis acessos aos túneis.
Os socorristas também começaram a perfurar pontos na parte superior das estruturas subterrâneas para tentar alcançar os trabalhadores.
Na Trishuli 3A, uma abertura foi ampliada até permitir a entrada de uma pessoa utilizando cordas e equipamentos de segurança. Os profissionais chamaram pelos trabalhadores, mas não receberam resposta.
Antes disso, as equipes haviam bombeado ar para dentro do túnel e enviado alimentos.
O próximo passo é tentar enviar equipes para o interior das estruturas com oxigênio, suprimentos médicos, equipamentos de comunicação e câmeras.
Resgate enfrenta obstáculos técnicos
A abertura de novas passagens exige equipamentos capazes de atravessar estruturas metálicas e partes reforçadas das usinas.
“Precisamos de equipamentos especiais para atravessar o aço e tudo o que envolve a sala das turbinas. Então, são camadas e mais camadas de dificuldades técnicas”, explicou Dix.
Além dos riscos dentro dos túneis, o acesso às instalações também foi prejudicado pela destruição provocada pelas enchentes. Em alguns locais, os danos à infraestrutura dificultam até mesmo o pouso de helicópteros.
Centenas de trabalhadores conseguiram escapar
Apesar da dimensão da tragédia, pelo menos 279 trabalhadores de usinas hidrelétricas foram resgatados ou conseguiram sair por conta própria de túneis cobertos por lama e sedimentos.
Os sobreviventes, porém, ainda enfrentam a angústia de não saber o que aconteceu com colegas e familiares.
Bhakti Ram Bohara, um dos trabalhadores que conseguiu escapar, estimou que aproximadamente 100 pessoas conseguiram sair de sua usina e de outros projetos próximos, de um grupo de cerca de mil trabalhadores.
Entre os desaparecidos está seu cunhado. Os dois trabalhavam na mesma equipe e passavam semanas longe de suas famílias.
“A esposa dele é minha irmã, e ela está grávida”, contou Bohara, emocionado, à CNN.
Outro sobrevivente, Ram Chandra, relatou que precisou se agarrar às barras instaladas no teto para escapar enquanto água, concreto e outros detritos se movimentavam violentamente pelo túnel.
Segundo ele, foram necessárias seis horas para que ele e os colegas conseguissem chegar à entrada.
Enchentes atingiram dezenas de usinas
Segundo as informações apresentadas pelas autoridades e pelos especialistas envolvidos no resgate, até 27 usinas hidrelétricas foram danificadas no Nepal. Cerca de 12 teriam sido praticamente destruídas.
O impacto ocorre em uma região onde projetos de infraestrutura e geração de energia vêm crescendo nos últimos anos.
Nepal, Índia e China têm investido na construção de usinas hidrelétricas e outras estruturas no Himalaia, aproveitando o potencial dos rios para geração de eletricidade.
O desastre, entretanto, reacende o debate sobre os riscos de grandes obras em uma região sujeita a enchentes, deslizamentos e terremotos.
Especialistas defendem que a dimensão dos danos deve servir de alerta para o planejamento de novos projetos, especialmente diante dos efeitos das mudanças climáticas e da vulnerabilidade ambiental e geológica do Himalaia.
Enquanto esse debate ganha força, as equipes de emergência mantêm o foco na prioridade mais imediata: encontrar os trabalhadores desaparecidos e descobrir se ainda há sobreviventes nos túneis atingidos pelas enchentes.

