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Por Odair Dias Filho
A recente ofensiva tarifária dos Estados Unidos contra produtos brasileiros — um pacote que pode onerar nossas exportações em até 37,5% — acendeu um alerta não apenas comercial, mas geopolítico. A decisão do governo Donald Trump de usar a “Seção 301” para taxar o Brasil escancara uma tentativa de ingerência direta na economia nacional.
Em resposta, o acionamento imediato da Organização Mundial do Comércio (OMC) pelo Itamaraty transcende a burocracia de Genebra: trata-se de um movimento firme em defesa da soberania brasileira e, sobretudo, um atestado do compromisso histórico do país com o multilateralismo civilizado.
O Respeito ao Direito Internacional versus o Autoritarismo Unilateral
Ao formalizar o pedido de consultas na OMC contra as sobretaxas de 25% (sob a frágil alegação de práticas desleais) e de 12,5% (citando fiscalização de trabalho forçado), a diplomacia do Brasil marca uma posição clara. A atitude de recorrer à organização evidencia o compromisso inegociável do país com o respeito ao direito internacional, aos tratados globais e às organizações multilaterais. O Brasil demonstra, na prática, que a via institucional e diplomática é o único caminho aceitável para a resolução de conflitos entre nações soberanas.
Em nítido contraste, o comportamento de Washington reflete um autoritarismo econômico que coloca interesses próprios acima de tudo. Se os Estados Unidos tivessem queixas legítimas a fazer, poderiam — e deveriam — utilizar os mesmos fóruns de referência globais para mediar a situação. Em vez disso, optam por ações isoladas e unilaterais, atropelando as regras básicas de convivência no comércio internacional.
Mesmo lidando com o fato de que o tribunal de apelações da OMC está paralisado desde 2019, justamente por bloqueios estratégicos norte-americanos, o Estado brasileiro aciona a entidade para sinalizar ao mundo que o unilateralismo não pode ser normalizado e que sanções arbitrárias não serão aceitas de cabeça baixa.
O Escudo ao Setor Produtivo e aos Empregos
A ação do governo federal e das agências de Estado, como a ApexBrasil, foca na contenção de danos e na proteção do trabalhador. Setores vitais para a balança comercial e para a geração de empregos, como a siderurgia (que exporta US$ 3,5 bilhões anuais aos EUA), o agronegócio e a indústria calçadista, estão no centro da disputa.
Para evitar que as fábricas parem e postos de trabalho sejam ceifados, a estratégia adotada une diplomacia e pragmatismo econômico. Enquanto o Itamaraty trava a batalha política exigindo o cumprimento do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), a equipe econômica trabalha para acelerar a abertura de novos mercados globais, garantindo que a nossa produção encontre compradores alternativos e esvazie o poder de chantagem das tarifas americanas.
O Pix sob Ataque e a Ingerência Externa
Um dos pontos mais sensíveis e reveladores dessa crise é o ataque direto de Washington ao Pix. Ao incluir o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central brasileiro na lista de “práticas desleais”, os Estados Unidos tentam intervir em uma tecnologia financeira soberana que revolucionou o país.
O Pix não é apenas um facilitador; é um motor de inclusão que democratizou o acesso bancário e gerou uma economia estimada em mais de R$ 106 bilhões para a sociedade e para o varejo, ao eliminar as taxas abusivas dos antigos modelos de transferência bancária.
Atacar o Pix é, na prática, atacar a modernização do Estado brasileiro. A tentativa de ingerência política dos EUA reflete o incômodo com a eficiência de uma infraestrutura pública que não depende de conglomerados financeiros estrangeiros para funcionar, garantindo agilidade e verdadeira autonomia à nossa economia.
Crescimento Econômico e o Reconhecimento Internacional
Curiosamente, o tarifaço ocorre no exato momento em que o Brasil demonstra forte resiliência. A imprensa internacional e as agências de risco vêm destacando repetidamente o crescimento robusto do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, impulsionado por um mercado interno aquecido e exportações recordes.
Hoje, o Brasil é muito menos vulnerável às intempéries de Washington do que era há duas décadas. Enquanto em 2005 os EUA absorviam quase 20% das nossas vendas externas, hoje essa fatia está na casa dos 9%. A diversificação de parceiros e o fortalecimento das relações no Sul Global blindam, em grande parte, o nosso crescimento.
O embate na OMC é o reflexo de um Brasil que cresce, inova com tecnologias próprias e exige ser tratado como um parceiro e competidor global de peso, submetido apenas às regras do direito internacional. A resposta firme do governo e a excelência histórica do Itamaraty mostram que a defesa do nosso setor produtivo e do nosso desenvolvimento tecnológico não se curva a arroubos autoritários estrangeiros.

