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A Caixa de Pandora de Epstein
Na mitologia grega, Pandora, a primeira mulher, recebeu de Zeus, deus dos deuses, um jarro misterioso. Ela não deveria abrir o jarro, ou caixa. Mas ela não tinha conhecimento do conteúdo. O conteúdo era terrível: todos os males que ainda não existiam no mundo. Pandora não resistiu à curiosidade. E a abertura da caixa libertou a mentira, as doenças, a inveja, o ódio, as guerras… Dentro da caixa restou apenas a esperança.
O governo dos Estados Unidos também recebeu, há alguns anos, uma caixa parecida. Dentro da caixa, digital, estavam os arquivos secretos das investigações do caso Epstein. Pandora coletiva, a opinião pública ardia de curiosidade. Que figuraças dos mundos dos negócios, das artes, do show business, dos esportes, da academia e, principalmente, da política estariam naqueles arquivos? Quais seriam os horrores agenciados pelo bilionário pedófilo Jeffrey Epstein para essas celebridades?
Que houve muito sexo com crianças e adolescentes, quanto a isso não há dúvida.
Num dos arquivos, o bilionário Elon Musk pergunta a Epstein:
“Quando vai ser a festa mais selvagem na mansão das Ilhas Virgens?”.
Noutro alguém elogia a garota mais novinha da orgia:
“Traquinas, abusada”.
O bilionário árabe Sultan Sulayem recebe um agradecimento comovido:
“Adorei o vídeo de tortura”.
Fala-se de uma menina assassinada por asfixia durante relação sexual com um jornalista inglês e enterrada num campo de golfe de Donald Trump. De “calendar girls”, meninas leiloadas. De um bebê morto em um ritual.
Não há limite para os horrores.
A contabilização chega a mais de mil vítimas de abusos de todos os tipos. O cenário é de um luxo acessível somente a grandes celebridades. Epstein e essa elite viciada e decadente tiveram durante boa parte das duas primeiras décadas deste século carta branca da sociedade para exercitarem todas as taras e perversões. Nem Nero e Calígula chegaram perto dessa depravação absoluta.
Epstein ansiava por contar com frequentadores vips de nível top nas festas, orgias e abusos de crianças que promovia. E os vips não negaram fogo: o ex-presidente Bill Clinton, o cineasta Woody Allen, o criador da indústria de fake news Steve Bannon. A ex-poderosa do governo Obama, Kathryn Ruemmler, renunciou ao cargo de advogada-geral da Goldman Sachs na semana passada. O ex-príncipe Andrew, irmão do rei Charles III, foi preso. O ex-embaixador britânico nos Estados Unidos, Peter Mandelson, casado com marido brasileiro, também. A lista é interminável.
Na caixa de Pandora, ficou apenas a esperança. Na dos arquivos secretos do caso Epstein há muitos elementos que ainda não emergiram desse lamaçal. Não se sabe até agora, por exemplo, a extensão da participação do atual presidente, Donald Trump, nessas barbaridades. Ele é citado pelo menos 500 vezes nos arquivos.
Talvez uma bateria de psicólogos, terapeutas, filósofos, médiuns, psiquiatras e peritos possa tentar desvendar a motivação interna que levou esses poderosos a ações tão desprezíveis.
E há também uma esperança nessa caixa. Esfiapada, fragilizada, desacreditada, mas ainda assim esperança: a de que uma investigação rigorosa e punições também rigorosas intimidem os componentes potenciais dessas alas vips a nunca mais encostar essas mãos imundas em outros seres humanos. Principalmente se esses seres humanos ainda são crianças e adolescentes.
