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O abismo entre o desalento e o entusiasmo na reta final

 

 

Alguns textos têm o poder de mexer com a gente. No domingo (25/01) aconteceu isso comigo. Li no portal UOL um texto do jornalista Ricardo Kotscho sobre o cansaço da velhice. Ele se diz, aos quase 78, cansado de escrever, única coisa que sabe fazer. “Será que ainda tem gente interessada em ler o que escrevo nesta floresta de informações e opiniões em todas as plataformas?”.

Kotscho se inspirou num texto daquela semana de Mirian Goldenberg, que por sua vez cita a crônica de despedida de Rubem Alves na Folha, em 2011, também aos 78: “A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas.”

Fiquei conectado a essas questões desde o momento da leitura: finitude, envelhecimento e legado. Reli várias vezes. Mandei o texto para algumas pessoas com quem tenho o hábito de trocar ideias. Pedi para a psicóloga Paula Carvalhaes destrinchar o tema no quadro de Comportamento que ela apresenta no ISFM News todas as terças-feiras.

Senti, principalmente, tristeza. Admiro Ricardo Kotscho sem conhecê-lo pessoalmente, só pelo que expressa profissionalmente.

Mas senti também um certo incômodo. Rubem Alves, Ricardo Kotscho, Miriam Goldenberg… será inevitável esse cansaço da velhice? Será que estamos todos os que cruzamos a barreira dos 70 fadados a essa exaustão?

Aí, na terça-feira, depois de metabolizar muito a questão, brotou do meu baú de lembranças um episódio da carreira do médium baiano Divaldo Franco. Em 2019, uma repórter de televisão pergunta mais ou menos isso a ele:

“Você não está cansado, aos 92, de subir e descer de avião, arrumar a desarrumar malas e enfrentar plateias cada vez mais impregnadas de materialismo, com uma linguagem cada vez mais distante da sua?”.

“Minha filha” – ele responde, “quando me colocaram em contato com a doutrina espírita, recebi um tesouro. E enquanto eu tiver forças e fôlego, vou compartilhar esse tesouro com o maior número de pessoas que eu puder.”

A diferença de atitude é muito grande. Parece um abismo.

E aí, tocado também por essa lembrança da entrevista do médium baiano, me pergunto e pergunto a você:

Qual o fator diferencial entre esse desalento de Kotscho e esse entusiasmo de Divaldo?       

Onde mora esse fator? No campo intelectual? No emocional? No físico? No espiritual?

Pergunto sem entrar na área minada das avaliações e julgamentos, do certo-errado, dos pré-conceitos, mas sim direcionando o questionamento só para esse abismo. De um lado o tédio, o desalento, a quase depressão. Do outro, o entusiasmo, o envolvimento, a paixão… De um lado a desmotivação para continuar escrevendo. Do outro um tanque transbordando de combustível para a continuidade de uma cruzada.

Eu tenho uma intuição, uma pista, um esboço de resposta. Mas a questão é complexa demais, importante demais, pessoal demais pra que eu arrisque todas as minhas fichas numa única possibilidade.

Prefiro ouvir outras opiniões. Prefiro receber de você, que leu este texto, a resposta para essa questão que eu proponho. Prefiro continuar ruminando essa tristeza e esse incômodo.

Talvez a sabedoria dos antigos gregos e romanos possa ajudar.  A origem etimológica de desalento está no latim. “Des” é negação e “halentare” significa tomar fôlego, respirar. A palavra desalento no nascimento traduzia falta de fôlego, alguma coisa muito natural no final de uma corrida, de uma caminhada, de um percurso.

Já entusiasmo vem de “enthousiamos” que, na sabedoria milenar dos antigos gregos, significa “ter um deus dentro de si’. Também explica com muita naturalidade a energia interminável que mantém alguém numa cruzada.

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