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Caleidoscópio de Aos Novos
O ano novo começou intenso. Trump causou. Primeiro com a prisão espetaculosa do ditador Maduro e esposa. E depois com as ameaças megalomaníacas concentradas na Groenlândia e esparramadas para Canadá e Venezuela. Na Inteligência Artificial, a ilha dinamarquesa e os territórios canadenses e venezuelanos já têm bandeiras dos Estados Unidos fincadas.
Pois é. O ano novo mal começou e já estamos na última semana de janeiro. É muita intensidade.
Intensidade justamente que me faltava no dia 1º. Ainda letárgico dos fogos, das 7 ondas e do espumante, levei a filha na rodoviária, para o plantão na redação em São Paulo, e fui garimpar algum lugar aberto para o café da manhã.
Encontrei uma conveniência de posto de combustíveis. Daí a observar o café da manhã dos outros e tirar conclusões sem nenhum fundamento, foi só um pequeno passo. Pequeno passo aliás natural num dia primeiro de um ano que já começava incerto.
Um casal 70+, os dois magrinhos, levanta para pagar a conta e sair. Ele vai bem na frente, esquecendo qualquer resquício de cavalheirismo, companheirismo, educação, sei lá mais o quê. Ela se demora um pouco na mesa para aproveitar até o fim um restinho de suco de laranja na jarra. Será que esses dois se suportam até dezembro?
Outro casal, esse 60+, com sotaque e sobrepeso pede gelo. A comanda cai no piso e ele mostra dificuldade para se abaixar e pegar. Panquecas com muito molho e batata frita… Se eu tivesse de apostar, colocaria minhas fichas no aumento do sobrepeso e da dificuldade para buscar objetos no solo em 2026.
Duas mulheres e um homem 40+ passam o tempo todo mexendo no celular. Nenhum dos três presta a mínima atenção nos outros dois. Certeza de que não vão construir um triângulo amoroso neste ano.
Vejo agora um casal 30+ com um filho de 12. Pai e filho usam camisetas coloridas do tipo regata, do Lakers de Lebron James. Pai e mãe olham com afeto para o menino que joga videogame. Geração saúde: pão integral, ovos mexidos. Os músculos vão estar ainda mais definidos no próximo réveillon.
Baixando para os 30-, um casalzinho com jeito de namorados, ficantes, paqueras, flertantes… Ela está de costas para mim. Ele, de sandálias havaianas, bermuda e camiseta novas, está visivelmente encantado. Os dois falam e gesticulam com entusiasmo.
Fico imaginando se daqui a alguns anos esse encanto vai se transferir para o filho, depois para o celular, para a comida ou para a quase-hostilidade que os casais 30, 40, 60 e 70+ sugerem para o meu olhar de não-psicólogo.
Tem um 60+ sozinho ali. Solteirão. Nenhuma mulher iria permitir que ele saísse na rua com calção e tênis pretos e aquela regata verde-limão. Se ele pretende emparceirar, está começando o ano na direção errada, mas nada que um improvável banho de loja não resolva.
Tem um 70+ sozinho também. Frequentador contumaz. Ele conversa com os atendentes e encaixa com familiaridade a bengala num espaço entre uma lixeira e a sorveteira. Bermuda, tênis e camisa de abotoar discretos e a expressão de quem espera só cumprir tabela em 2026,. Minha aposta é de que ficou viúvo recentemente.
Ninguém olhou até agora para uma 60+ que bebe cerveja sozinha lá no fundo. Já tem algumas garrafas vazias na mesa. Ela mesma parece olhar para ano novo nenhum.
Percebo de repente o preconceito nas minhas previsões. Elas partem do princípio de que todos ali vão repetir comportamentos. E aí desejo de coração pra eles, pra mim e pra você que lê esse texto, as guinadas necessárias para os resultados que a gente sonhou na virada de ano. Pensamentos, palavras e obras diferentes para chegar a resultados também diferentes.
